sábado, 31 de março de 2012

Mas o que tenho eu de diferente?



A noite estava especialmente calma. Isiam caminhava sem destino pelo orfanato.
Sentado num parapeito de uma das janelas, Alois observava o jardim. Agarrava as pernas com os braços e mexia os pés ao ritmo de uma música que parecia ecoar-lhe na cabeça.
Isiam passou perto dele, esperando que Alois não tentasse meter conversa.

-Ah... Isiam, não é?

Isiam estacou e os seus olhos azuis cruzaram os verdes de Alois. Anuiu.
Alois levantou-se e aproximou a sua cara da de Isiam, sorrindo.

-Vieste quebrar a monotonia da Jewel Days. Isso é bom.

Isiam deu um passo atrás, embaraçado e sem saber o que dizer.

-Tu não és como eles, há algo em ti de diferente. Isso é bom. Para mim também.
-O que queres dizer com isso? -perguntou Isiam, franzindo o sobrolho.

Alois, com o seu olhar malicioso, fitou o jovem acabado de chegar.

-Gosto do diferente. Estou farto do normal.

sábado, 24 de março de 2012

Só e apenas meu


Alois foi o único que não lhe ligou nenhuma, quando chegou ao refeitório acompanhado de Donna.
Todos os outros se aproximaram de Isiam, curiosos. Fazia um bom tempo que não chegava ninguém ao orfanato.

-Dêem as boas-vindas ao Hokushi, pessoas. -anunciou Donna.

Isiam percorreu o grupo de pessoas curiosas à sua frente com o olhar. Abriu um pequeno sorriso. E depois viu-o. Viu o loiro, bastante afastado, que continuava a lanchar, alheio à confusão gerada pelo amontoado de gente à porta do refeitório. Parecia observar tudo de longe, inexpressivo.

"Ignora-me deliberadamente. Porquê?"

Depois de todos fazerem uma ou outra pergunta e de regressarem às suas mesas, Isiam perguntou o nome do rapaz a Donna, em voz baixa, curioso pela falta de interesse.

Mas o rapaz estava enganado. Aquilo não era falta de interesse. Muito antes pelo contrário. Nunca ninguém novo lhe tinha causado tanto interesse.

-Alois. Alois Thive. Esse não convém teres como inimigo, acredita.

Essa foi a única informação que conseguiu sobre ele nesse dia. Por seu lado, Alois tinha conseguido uma ideia. Uma ideia não, um objectivo.

«Serás meu»

sexta-feira, 9 de março de 2012

Mais um



Isiam foi trazido até ao orfanato de táxi. Chovia bastante nessa tarde. A taxista ajudou-o a sair do carro e a levar a sua modesta e quase vazia mala até à entrada do edifício. Este tinha por cima da porta um velho letreiro com o nome «Jewel Days».

-Ficas entregue, miúdo? -perguntou a jovem ao sonolento rapaz. Ele anuiu e entregou-lhe o dinheiro que a assistente social lhe tinha dado.

Debaixo do pequeno telheiro, ficou a ver a taxista voltar ao automóvel e partir novamente para a cidade. Suspirou e ficou uns instantes a observar a porta, antes de tocar à campainha.

Foi recebido por uma menina de cabelos ruivos, olhos verdes e um vestido comprido. Ela sorriu quando o viu e agarrou-lhe na mala, embora fosse mais nova e mais pequena do que o rapaz.

-Isiam, finalmente! -exclamou ela, empolgada.
-Finalmente? Estavam à minha espera? - perguntou ele, confuso.
-Não. Bem, eu estava. Mas deixa lá. Donna, prazer. -disse, estendendo-lhe a mão e sorrindo.

Ela estava. E já devem saber porquê. Também ele era obra de Donna e de Heshian.

Um rapaz poderoso



Ele tinha sido o primeiro. E, por mais que se perguntassem porquê, o porquê dela lhe dar tanta importância, nunca saberiam.
Ele era frio. Ele era amargo. Ele era traiçoeiro. Vingativo. Egoísta. Odiável.

Ela não lhe dava razão. Donna sabia quando algo estava errado, sabia ver quando era o seu primeiro personagem a fazer asneira. Não podia fechar os olhos apenas por ter sido Alois o causador.
Mas dava-lhe poder. Não ralhava com ele por pequenos pormenores. Por pequenos deslizes que a maioria desaprovava. Porque, lá no fundo, gostava de o observar.
Tudo aquilo que tinha escrito estava agora ali, e ela gostava dele. Gostava do rapaz, apesar de, como pessoa, ele não ser tão bom assim.

Ele respeitava-a e isso era, por vezes, o suficiente. Ele ia ganhando, aos poucos, cada vez mais poder e respeito no orfanato.
Todos sabiam que o loiro tinha uma enorme perspicácia. E tinha Donna do seu lado.

E, num orfanato situado algures numa floresta relativamente perto de Londres, um rapazinho, de nome Alois, ia ficando conhecido. Conhecido e poderoso. Graças a Donna.

sábado, 3 de março de 2012

Um nome para o loiro de vestido



Quando a noite chegou, Donna adormeceu com as linhas, o boneco de pano e o caderno abraçados a si. E, quando o momento chegou, levou-os consigo para dentro do espelho.

-Hey, pequena! Como estás? Que trazes aí?
Donna não respondeu, limitando-se a sorrir e a pousar tudo o que trazia nos braços no banco de pedra.
-É aquilo que combinámos?

Os olhos de Heshian pareciam brilhar. Pegou no caderno e folheou-o rapidamente, admirando a quantidade de informação ali escrita. Depois agarrou no boneco costurado e sorriu.

-Preciso de um nome. Um nome, um apelido e uma idade.

A pequena permaneceu em silêncio por instantes.

-Alois Thive, quinze anos.

O loiro de vestido



Donna combinou com Heshian que iria criar. Ela inventava, criava, escrevia e costurava. Ele dava vida. Era o acordo.

Para o seu primeiro experimento, escolheu um rapaz.
Pegou num caderno antigo, abriu-o e começou a escrever.
Escreveu sobre o passado dele, sobre as suas origens, sobre a sua família.
Escreveu sobre o presente. Sobre a sua maneira de ser e de interagir com os outros.
Sobre os seus sonhos e aspirações.

A sua escrita não era a melhor. A pequena não tinha um vocabulário muito complexo e gramática não era com ela. Mas fê-lo com amor, e talvez fosse isso o mais importante.

Depois de ter escrito o mais importante, pegou em materiais de costura que tinha achado em quartos vazios do orfanato e pedido ao Jack.
E começou a trabalhar. Todas as noites, avançava com o projecto.
Costurou um bonito boneco de pano.
Cabelo loiro, feito com linha amarela.
Olhos verdes, botões verdes.
E duas roupas: um conjunto de casaco comprido, calções justos e camisa; e um vestido.
Só mais pela graça.

E depois, esperou que a noite certa viesse. A noite em que ela sentisse que o seu projecto estava pronto para ganhar vida.