terça-feira, 7 de agosto de 2012

Era impossível continuar a vê-lo chorar

-Era eu que estava com ele lá em baixo, Alois.

Alois olhou para Isiam. As lágrimas já quase secavam na sua cara, mas voltou a sentir uma dor no peito. Sentia-se, de certo modo, traído. E confuso. Isiam também não estava a entender. Tomoya estava a arruinar o que tinham planeado e provavelmente a estragar as relações que todos tinham entre si. Um pouco receoso que as culpas caíssem sobre Isiam, que tinha sido também apanhado de surpresa, Tomoya adiantou-se.

-Mas ele não tem culpa. Fui eu que lhe pedi para colaborar comigo.

Enquanto Tomoya falava, Alois fitava Isiam, magoado. Não entendia o objectivo daquilo se, no fim, acabariam por se descair à sua frente. Diversão, talvez? Mas Tomoya parecia muito nervoso, não muito divertido. E Isiam sentiu-se metido em sarilhos, sem grande explicação que pudesse dar a Alois. Sentia um aperto no coração por vê-lo quase a chorar, novamente. Eram raras as vezes em que o vira chorar. Doía-lhe ainda mais ser o causador daquelas lágrimas.

-Não preciso de ti aqui. Melhor, não te quero aqui. Sai daqui, Tomoya! -gritou, apontando para a saída. O facto de não lhe chamar "Tommy" também o assustava, mas não queria saber disso naquele momento -Sai! -repetiu, por não ter obtido reação à primeira.

O rapaz obedeceu, sob o olhar preocupado de Isiam, que deveria receber o sermão sozinho. Pesados segundos até a porta se fechar atrás dele, quando voltou a encarar Alois. Agora já não olhava para ele. Fitava o chão. Isiam conseguiu destingir as lágrimas a caírem por detrás dos seus cabelos loiros.

-Isiam... Porquê? Para que foi tudo isto? Responde-me agora, por favor. -pediu, em voz baixa.

Isiam, que permanecia gelado a uns três metros de Alois, estremeceu. O outro idiota tinha-lo deixado sozinho, sem grande coisa para dizer. Excelente.

-Eu... 

Isiam hesitava tanto que as palavras teimavam em não sair da sua boca de forma nenhuma. Excelente hora para não conseguir terminar as frases. Alois levantou a cabeça e olhou para ele.

-Mesmo sabendo que gosto tanto de ti? Para que foi isto? Explica-me. Para... para desistir de ti? Era esse o objectivo?
-Nós sabíamos que te ias magoar. Mas se depois o Tomoya ficasse com o caminho livre... Poderias ser mais feliz com ele...

Alois tapou a cara com as mãos, incrédulo com o que acabara de ouvir. Quem era ele para decidir com quem seria mais feliz? E seria realmente mais feliz com alguém que era capaz de tudo para conseguir o que queria? Alguém que não olhava a meios para atingir os seus fins? Magoasse quem magoasse?

-Isiam... És tu que decides com quem eu serei mais feliz? Eu não posso... escolher? 

Isiam encolheu-se e baixou a cabeça, envergonhado. Alois tinha razão. Não era ele que devia decidir nada. Ele sabia que ia dar asneira, mas mesmo assim aceitara. Ele também não tinha estado bem, apesar da ideia não ter partido dele. Alois soluçou. Isiam sentiu-se sufocar. Vê-lo tão em baixo, ainda por cima por sua causa, deixava-o demasiado magoado do que o que gostaria de admitir.

-Alois, desculpa... Na altura pensei que não fosse má ideia. Mas agora, ao ver-te assim... -gemeu, aproximando-se do mais alto.

Alois observou-o aproximar-se. Quando estava já suficientemente perto, levantou o braço e limpou-lhe as lágrimas dos olhos com os polegares. O coração de Alois parou por instantes.

- ... não consigo ver-te chorar. -murmurou-lhe, reparando no olhar do outro sobre si e apercebendo-se de que estava já demasiado perto. Baixou o braço e encolheu-se ligeiramente, olhando para baixo.

Alois sentia a respiração do mais novo já muito perto de si. Talvez...

Levantou o queixo dele suavemente com o indicador, olhando-o nos olhos. Isiam respirou fundo, nervoso.
Alois aproximou a sua cara da de Isiam, com medo de que estivesse a fazer asneira. O mais provável seria ser rejeitado, como das inúmeras vezes anteriores. Mas Isiam fechou os olhos, ao aproximar os seus lábios dos do loiro. 

Lágrimas



 Um pequeno rapaz de coração partido correu para o quarto. Correu para o quarto e chorou. E uma rapariga que tinha observado a cena anterior correu atrás dele. Ela também não entendia. Aquilo que ela tinha criado, que tinha planeado, estava agora em risco por causa do mascarado misterioso. Também ela se sentia triste, mas sabia que o loiro se sentia muito pior. E embora soubesse que não podia fazer ou dizer nada que o ajudasse, continuou a seu lado.

Não demorou muito a que batessem à porta. Saiu Donna para dar a vez a Tomoya, já sem disfarce. Vinha falsamente consolar o amigo, porque supostamente tinha assistido à cena e se sentia triste por ele. Limpou-lhe as lágrimas da cara e aproximou-se dele.

-Como é que ele foi capaz? -soluçou, deixando-se ser consolado.

Tomoya não respondeu. Ele bem sabia como era difícil ter a pessoa que amava perto de outro alguém. As lágrimas quentes de Alois atingiam-lhe os ombros do casaco e o rapaz praticamente tremia. De nada valia pedir para se acalmar. Isiam sabia que Alois o adorava e receber um desgosto assim era um golpe terrível. 
Era suposto isto acontecer, mas Tomoya achou que vê-lo sofrer assim custava demasiado. E, lá bem no fundo, começou a aparecer um novo sentimento. Arrependimento.

-Alois, desculpa. Eu... eu já volto. -informou, afastando-se a custo dele e saindo do quarto. Naquele momento, decidiu deitar tudo a perder, o que viria a impressionar Isiam mais tarde. Não conseguia deixá-lo a sofrer assim. Não eram as suas lágrimas habituais, que por vários motivos caíam. Estavam carregadas de dor. Uma dor que nunca tinha observado nele, Alois.

Um confuso Alois viu entrar no quarto, minutos depois, Tomoya e Isiam.

-Alois, tenho uma confissão a fazer. Era eu que estava com ele no baile.

Não acredito nos meus olhos



Alois estava de vestido bordeaux comprido, feito por Donna, um laço da mesma cor no cabelo e e uma máscara dourada, que combinava com o seu cabelo. A recusa de Isiam sobre a ida com ele ao baile não o tinha abalado muito, porque já devia estar à espera. Por maiores que fossem as suas esperanças, Alois sabia que Isiam nunca iria aceitar o seu pedido. 

Olhava para a pequena multidão no salão, esperando encontrar alguém conhecido. Ou esperando encontrar Isiam. Queria saber como é que ele vinha vestido. Porque o teimoso não lhe tinha contado nada sobre a sua roupa até ali. Um pequeno sorriso abriu-se no seu rosto, pela impaciência e ansiedade que começava a sentir.

E depois, viu-o ao longe. O seu maravilhoso fato negro tingido de 'sangue' não não chegou a ser apreciado, porque Alois apercebeu-se de algo terrível. Isiam não vinha sozinho. 

«Porquê?»

-Isiam, quem é esse teu amigo? -perguntou, quando se aproximou deles. Tomoya estava totalmente coberto, pela máscara, fato e capuz. O estranho mascarado sorriu por detrás da máscara ao vê-lo tão nervoso.
Isiam segurava Tomoya pelo braço e, embora não fosse bom a mentir ou a representar, dava o seu melhor para que o loiro não notasse nada de estranho no cenário.

-Gostaria que não nos incomodasse esta noite. Porque esta noite ele tem dono. -informou o mascarado, em tom sério, provavelmente disfarçando a voz.

«O quê? Como assim?»

Alois franziu o sobrolho, começando a não achar muita piada à cena. Deixava-o ainda mais nervoso o facto de Isiam não reagir.

-Isiam, responde-me! -ordenou, elevando o tom de voz.
-Alois, por favor. Não nos incomodes. -respondeu, com alguma frieza, fazendo por não trocar olhares com Alois.

Algo não estava bem, ele percebeu. Porque é que ele não sabia de nada?