domingo, 29 de abril de 2012

Desta vez não fui eu




Donna recebeu a notícia de que iria chegar em breve outro rapaz. E desta vez ela não tinha mexido nas cordas por detrás do cenário. Donna não conhecia este rapaz, de todo.

O seu nome era Tomoya Okazaki e Donna gostou de o conhecer. Falou sobre ele a Heshian e este mostrou interesse no rapaz. Algo lhe dizia que ele viria a causar alguns problemas no calmo quotidiano do orfanato.

Heshian tinha razão.

-Pelos vistos, sou o novo órfão de Jewel Days. -dizia, quando chegava à entrada com Donna. Os outros aproximaram-se dele. Ryden, Isiam e Alois cumprimentaram o novo morador.

E provavelmente aí começaram os problemas. Isiam sorriu. Isiam disse que lamentava a morte dos pais do novo rapaz. Isiam estendeu-lhe a mão. Como devem calcular, houve alguém a não gostar. E houve alguém a ser frio para o novato, que embora um ano mais velho, parecia bastante nervoso. 

As conversas ao lanche foram animadas. Donna planeava mostrar mais tarde o orfanato a Tomoya e este parecia contente.

Alois ainda sorria, nos primeiros momentos, mas o seu interior parecia gritar que não gostava de intrusos. E os seus gélidos olhos azuis fulminavam o novato, que aparentemente tinha conseguido as boas graças de Isiam. As quais ele nunca tinha tido. Nem um único sorriso. Ou um aperto de mão.

Heshian sorria, ao ouvir as novidades. Deveras interessantes.

É tudo uma questão de tempo



-Ainda bem que os senhores já vieram. Já não falta muito para te ires embora para o teu quarto outra vez. -comentava Isiam, visivelmente contente. Alois não respondeu. A alegria do amigo por causa do facto de ele se ir embora incomodava-o um pouco, mas tentava não deixar transparecer isso.

Isiam preparava-se para descer, para ir às aulas. Pegou nos seus livros e ajeitou-os debaixo do braço. Também era altura de Alois descer, mas este continuava sentado na cama, a olhar para o vazio.

-Não te incomoda? -perguntou, ignorando a pressa do outro.
-O quê? -perguntou Isiam.
-A desarrumação. Se eu dormisse aqui também, podia deixar isto arrumado, como o meu está. -disse, sorrindo de modo patético.
-Ah, não, obrigado pela oferta. -respondeu Isiam, frio.

«Ainda bem que não vai ficar aqui muito mais tempo», pensava Isiam. Ele sabia que por dentro daquela casca meio amarga (ou excessivamente doce, talvez), Alois era alguém com quem podia contar e sabia-lhe bem não o ter como inimigo. Mas estava já farto das suas conversas.

Alois levantou-se e pegou também ele nos seus livros. Passou por Isiam, no momento parado e perdido nos seus pensamentos, e abriu a porta. Quando estava o suficiente perto do ouvido de Isiam, falou-lhe, com um ar malicioso.

-Tu sabes que é uma questão de tempo.
-Uma questão de tempo? -perguntou-lhe, surpreendido.
-Uma questão de tempo até seres meu. -sussurrou.

domingo, 22 de abril de 2012

Não tenhas medo



-Hoje fui acordado por ele. -contava a Donna, não muito entusiasmado. Ela sorriu, contente por o ouvir.
-Disse-me que ia chegar atrasado às aulas se não me levantasse.
-E como correu a noite? Ele não te chateou? -perguntou, interessada.
-Por mais estranho que possa achar, não. Tirando uma conversa sobre investigações, um pouco depois de nos deitarmos.

Donna riu-se. Conhecendo Alois como conhecia, espantava-lhe saber que ele não tinha passado dos limites. E, ao mesmo tempo, sabia o porquê de tal não ter acontecido.

-E tu. -chamou ela, sentando-se no seu colo. -Estás bem?

Isiam agarrou-a e sorriu-lhe. Sabia-lhe bem ter uma amiga que se preocupava com ele. Respirou fundo e olhou para ela, sério.

-Estou. Embora continue com medo, estou bem.

Medo. Isiam tinha medo. Medo de Alois. Mas não só medo daquilo que Alois pudesse tentar fazer. Tinha medo de amar, ou de voltar a amar.

-Não te preocupes, ele não deve ficar muito tempo. -tentava Donna alegrá-lo.

sábado, 21 de abril de 2012

Conversas de noite



Isiam fitava o tecto, no escuro. O silêncio preenchia o quarto. As palavras de Alois quebraram-no, para infelicidade do outro.

-Tenho frio. -queixava-se, do colchão estendido no chão ao lado da cama de Isiam.
-Há cobertores no armário. Levanta-te e vai lá buscá-los. -respondia-lhe Isiam, virando-se para o lado da parede.

Alois ficou calado por um bom bocado, e não se mexeu. Não tencionava de todo ir buscar os cobertores. Isiam ouviu o colchão mexer-se e pensou que Alois se tinha levantado para ir ao armário. Enganava-se.
Virou-se novamente, e deu de caras com o loiro, que se tinha sentado no seu colchão e pousado a cabeça à ponta da cama.

-E se criássemos um clube? -sugeriu, animado. Isiam revirou os olhos, aborrecido.
-Um clube?
-Não um clube como os das miúdas, um clube de investigação. Investigávamos tudo o que acontece de estranho aqui, no orfanato.

Isiam riu-se. Outra ideia louca que provavelmente cairia no esquecimento, pensou. Mas não desta vez. Desta vez, o loiro estava decidido.

-Ajudávamos a Donna e o Jack quando eles precisavam. Informações, talvez também. Investigávamos sobre isso e depois contávamos à chefe. Ela poderia contar connosco para o que fosse preciso. E talvez conseguíssemos com isso mais visitas à cidade! -continuava, entusiasmado.

Isiam respirou fundo e fitou Alois, às escuras. Não queria ser arrastado para um dos seus planos idiotas.

-O que me dizes? Podíamos ser assim uma boa ajuda para a Donna, não concordas? Só nós dois, sem mais ninguém. Não me vais dizer que não, ou vais? -perguntou, excitado como uma criança.

Isiam não gostava do rumo que a conversa tinha tomado. Virou-se para o outro lado, ficando de costas para Alois.

-Vou. Deixa-me dormir. -disse, chateado.

A resposta manteve Alois calado durante vários minutos. Dava tudo para subir para a cama a seu lado. Para abraçar o corpo lá deitado. Mas sabia controlar-se, sabia que Isiam não iria responder da melhor maneira.

-Tenho frio.

Há limites, não abuses



-Já me contaram que sugeriste que fosse dormir lá fora. -comentou Alois, rindo-se.

Isiam revirou os olhos, sentando-se na cadeira em frente da sua secretária. O loiro continuava sentado na sua cama, embora o colchão estivesse já estendido e arranjado.

-Fico contente por poder dormir aqui. -continuou, sorrindo.
-Não penses que cá ficas muito tempo. -resmungou Isiam, contrariado.

Alois olhou-o, inexpressivo. Ele sabia-o mas, naquele momento, esperava com toda a força e vontade que o problema com os canos do seu quarto demorasse a ser resolvido. Embora soubesse que a água poderia estragar alguns dos móveis e objectos que lá tinham ficado, não se importava.

-E se tentares alguma coisa, és expulso daqui. Se ultrapassares os limites, irei conversar com o Jack. Acho que ele não ia gostar muito de saber que estás aqui por favor e que mesmo assim não te sabes comportar. -avisou Isiam, nervoso.

Alois riu-se para si. Isiam parecia realmente inquieto e agitado com tudo aquilo. Não parecia muito contente.

-Não te vou fazer nada, tem calma. -tentou-o tranquilizar.

Isiam calou-se e ficou a observar o amigo durante alguns instantes. O loiro olhou para ele e sorriu. Não com o seu habitual sorriso malicioso e um tanto malvado, mas com um sorriso sincero, calmo.

-Obrigado. -disse, em voz baixa.

Isiam olhou para ele espantado. Não era comum Alois agradecer, ou pedir desculpa.

-Obrigado por me deixares ficar.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pedidos e reacções



Isiam foi chamado ao escritório de Jack. Donna disse-lhe para não se preocupar, que não era nada importante.

-Porque me chamaste? -perguntou o rapaz, ao entrar no escritório, um pouco nervoso.
-Canalizações. -disse, olhando Isiam despreocupadamente - Senta-te. Preciso de te fazer um pedido. -acrescentou, antes que o jovem pudesse perguntar alguma coisa.

Isiam sentou-se, curioso.

-Houve um problema com as torneiras do quarto do Alois. E agora há uma pequena inundação. Já contactámos os técnicos, mas eles poderão demorar um pouco a chegar e a resolver o problema. -explicou.

Isso explicava a cena que Isiam tinha visto de manhã. Riu-se baixinho, ainda curioso para saber o que é que ele tinha a ver com o assunto.

-Fui confirmar os quartos e... -continuava Jack.
-Em que parte é que eu entro? -perguntou Isiam, impaciente.
-Posso acabar? -perguntou Jack, com alguma severidade.

Isiam calou-se e baixou a cabeça, como que pedindo desculpa.

-O teu quarto e o dele são os maiores quartos com apenas uma pessoa. Queria perguntar-te se não te importavas que ele ficasse no teu quarto, só enquanto o dele não...
-O quê? P-porquê?!

Isiam levantou-se, meio indignado, meio espantado. Jack suspirou. Já esperava aquela reacção. Donna tinha-o avisado.

-Ouve, não estou a impor nada, estou apenas a pedir. A Donna disse-me que tu provavelmente não ias aceitar, e eu tentei ver mais alguns mas achei que o teu quarto era a melhor opção. Isto porque é o que tem mais espaço livre.

Isiam olhou-o com algum desespero, mas manteve-se calado.

-Achei que um colchão a um canto iria incomodar-te menos do que aos outros. Percebes ao menos o meu lado?
-Ele não podia ficar no corredor? Ou, não sei, talvez lá fora... -pedia Isiam, a brincar um pouco com a situação, para se tentar ver livre do loiro.
-Se ele ultrapassar os limites estabelecidos por ti, vens falar comigo. Mas eu percebo se não quiseres. Eu posso pedir aos outros ou tentar arrumar os móveis dos quartos livres...

Isiam suspirou, esfregando a cara com as mãos. Jack estava a conseguir o que queria.

-Não, deixa estar. Ele que fique comigo. -acabou por concordar, embora não muito contente.

Afinal, era um pedido de Jack. E o loiro não deveria ficar lá muito tempo. Ou pelo menos era o que ele esperava.

sábado, 14 de abril de 2012

Há males que vêm por bem



Isiam folheava um caderno no corredor quando viu passar Alois a seu lado, de pijama e encharcado. Antes que lhe perguntasse o que tinha acontecido, o loiro dirigiu-lhe a palavra.

-Agora não, tenho de ir falar com o Jack.

Jack ouviu a porta do seu escritório abrir-se depressa e a fechar-se com violência. Alois pousou as mãos na secretária de Jack.

-Hey, não molhes isso. O que te aconteceu? -Jack apressou-se a afastá-lo da secretária e a afastar dele uns papéis que estavam por perto.

-Já me tinha vindo queixar da torneira. E, como não me ligaram nenhuma, hoje ela deve-se ter partido e começou a deitar água para todo o lado. -Alois estava visivelmente irritado, embora soubesse que a culpa não era de Jack - E o melhor é que não parava, e ainda deve estar aberta. O chão da casa-de-banho está todo molhado. Se isto continuar, vai inundar o quarto!

Jack esfregou a cara com as mãos, tenso. Excelente notícia para começar o dia.

-Vai secar-te e vestir-te. Vou tentar chamar alguém para tratar da torneira. Como eles costumam demorar a chegar cá, tira as coisas mais importantes do quarto e trá-las para aqui.

Alois, que agora começava a arrefecer, tiritava de frio. Acreditava que os canalizadores não chegassem ainda nesse dia e estava preocupado.
Mas não sabia ele que esse pequeno incidente lhe traria vantagens.

domingo, 8 de abril de 2012

Vais à enfermaria, sim!



-Eu estou bem, Alois, larga-me.
-Como assim, estás bem?! Olha para essa perna!
-Só tropecei, eu fico bem.
-Vê-me esse sangue todo, rapaz. Consegues andar?
-Alois!!

O loiro estava ajoelhado ao pé de Isiam, que tinha caído. A enorme ferida parecia magoar mais Alois do que Isiam, e ele insistia em levá-lo à enfermaria.
Isiam levantou-se e só quando estava realmente de pé se apercebeu da dor que aquilo causava. Mas, como é óbvio, não disse nada.

-Isto já passa, não te preocupes comigo. -disse, apertando a pele à volta da ferida do joelho, tentando disfarçar a dor.
-Como não me preocupar? Sujaste o chão de sangue. Anda mostrar isso à Waliay. -teimou, pondo o braço de Isiam nos seus ombros, para o ajudar a andar.

Segundo Isiam, Alois era muito chato, mas também havia nele qualidades e lados menos maus. Isiam sabia que ele se concentrava apenas naquilo que estava a fazer, deixando de lado todas as segundas intenções que pudesse ter. E, quando o viu a ajudá-lo, nesse momento, percebeu isso mesmo. Ele não tencionava aproveitar-se de Isiam, por estar vulnerável, apenas o queria levar à enfermaria.

-Tu sabes que és um chato, não sabes? -perguntou Isiam, revirando os olhos.
-E tu és um teimoso. -ripostou Alois, rindo-se.

-E sabes que eu te adoro, não sabes? -perguntou o loiro, olhando-o nos olhos e sorrindo.

sábado, 7 de abril de 2012

Estás preocupada, pequena?



E nessa noite, ela veio ainda mais cedo. Pergunto-me se estaria com sono quando se foi deitar.
Ela chegou e encheu o jardim com o seu sorriso. Nessa noite, não me abraçou.

-Como foi o dia, pequena? -perguntei.
-Como sempre.

Era habitual ela não me contar muito logo à primeira pergunta que eu fazia. Mas ela estava um pouco diferente do costume. Parecia preocupada.
Sentou-se ao pé de mim e ficou ali um bocado, sem dizer nada, só a balançar os pés e com a cabeça encostada ao meu corpo.
Será que não me ia contar sobre aquilo que a atormentava? Como sonho, tenho o poder de entrar nas suas memórias, e podia ir ver o que se tinha passado se fosse realmente necessário, mas prometi a mim mesmo que me ia comportar. E que ia confiar nela.

Ela parecia tão frágil, ali a meu lado. A suave brisa fazia os seus delicados cabelos ruivos esvoaçarem, assim como as pontas do seu vestido. Só de pensar naquilo que lhe poderia fazer, se não tivesse um pingo de decência no meu corpo -cof-

Eu achava-a frágil, pequena, jovem. Mas já tinha percebido que ela era diferente. Que tinha uma mentalidade um pouco diferente dos jovens da idade dela. A maneira de falar e mesmo a de pensar eram mais adultas. Ela parecia realmente ter uns dez anos, com aquele corpo. Mas aquela mente era especial.

Estar ali, ao lado dela, soube-me maravilhosamente bem. Abracei-a.

-Donna... Pareces preocupada. Não me vais contar nada?
-Oh, Heshi, não é nada. Estou só curiosa para ver como correm as coisas com os rapazes.

Beijei-lhe a cabeça, já bastante mais aliviado.

-Com o Isiam e com o Alois?
-Sim. Não sei se o Isiam gosta muito do meu loirinho.

Eu ri-me. Ela olhou para mim, e parecia perguntar-se porque me tinha rido.

-Eles hão de dar-se bem, não te preocupes.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Que ninguém lhe toque, ele é meu



Alois estava a tornar-se possessivo. Não era só a protecção, quando Isiam precisava dela. O loiro começava a tratá-lo como se ele lhe pertencesse.

Pelo lado positivo, ele podia fazer tudo o que quisesse. Digo, com as outras pessoas. Se lhe desse vontade, podia convidá-las para sair. Podia gostar delas. Mas os outros é que não lhe podiam tocar. Não o podiam convidar para lado nenhum e não podiam gostar dele.

Ele observava sempre tudo, a uma dada distância. E tinha ciúmes de todos com quem ele falava. Ciúmes de tudo em que ele tocava. Mas sabia controlar-se. Respirar e manter a calma. Desde que fosse Isiam a fazer, tocar ou falar.
Se os outros passassem o limite que ele próprio tinha estabelecido, não se importava de se levantar do lugar e dar espectáculo ali, à frente de todos.

Aos poucos, o pessoal ia aprendendo que não deveria tocar no Isiam. Porque arranjar problemas com Alois nunca fora divertido.

Isiam não fazia menos amigos por causa dele, mas todos sabiam que não se podiam aproximar mais do que aquilo. Isiam também nunca fora muito sociável, mas sentia-se preso.

De facto, Isiam não gostava do comportamento possessivo de Alois. Ele "não gostava" era pouco. Ele detestava. Mas não discutia. Apenas resmungava em voz baixa e o afastava quando era realmente preciso. Não tinha falado com Donna sobre o assunto, mas já toda a gente no orfanato se tinha apercebido da situação.

Eu não sou... teu.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ela agradece-te, Jack



Jack sabia que Waliay estava muito contente por estar ali. Sabia também que o orfanato não era o lugar ideal, sabia que ela preferia a liberdade, sabia que ela preferia trabalhar, viver sozinha e não dar problemas a ninguém.
Mas o "não ser tratada como órfã" era muito importante para ela e devia isso a Jack.
Por mais que ela não dissesse nada a respeito, Jack sabia que ela se sentia agradecida.

-Queres... queres ajuda? -perguntou ela, ao espreitar para escritório.
Jack ajeitou-se na cadeira e olhou para ela.
-Ouvi-te resmungar quando passava pelo corredor. Parecias exaltado, e como tens sempre tanto trabalho... -explicou-se Waliay, entrando e sentando-se na cadeira à frente da secretária.

Ele sorriu. Era verdade. Jack trabalhava demais, estava sempre rodeado de papéis, documentos e ficheiros. Isso deixava-o sempre um pouco nervoso. Mas não queria a ajuda dela, não era preciso.

-Não, Lian, obrigado. Mas podes fazer-me companhia, se quiseres.

Lian.

-E, ah, desculpa. Posso chamar-te Lian? É uma alcunha tão simpática!

Waliay corou. Aquilo fez o seu dia.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um lugar só teu



Era uma tarde de Outono, com uma temperatura amena e o sol quase completamente escondido atrás das nuvens. A brisa era já fresca demais para a maioria das crianças vir para a rua brincar, mas ainda havia quem gostasse de sair do ambiente um pouco monótono do orfanato.
Alois era uma dessas crianças.

Por mais incrível que pudesse parecer, ele gostava de sair à rua. Adorava o conforto do interior, mas também apreciava uns bons momentos ao ar livre.

Tinham passado alguns meses desde que tivera essa ideia. Era Verão e ele observava da janela um ou outro grupinho de raparigas a atravessar o pátio e a partir para o interior do bosque.
E, quando começou a observar com mais atenção, percebeu que se juntavam em pequenos esconderijos entre as árvores e arbustos.
E também ele quis um esconderijo.

Confesso que ele teve melhor gosto do que esses grupos de raparigas. O seu esconderijo ficava numa pequena clareira, bastante afastado do orfanato. Apenas à distância de poucos metros, havia uma pequena nascente, que formava um lago, não muito grande também.

Lá, prometeu a si mesmo que não o iria mostrar a ninguém. E que aquele lugar seria só dele. Que, quando o mau tempo do Inverno passasse, iria começar a trazer para ali algo que tornasse a clareira um pouco mais especial.

E nessa tarde, em que já muitos tinham preferido ficar lá dentro, ele saiu para a sua clareira. Como sempre, verificou se ninguém o via. Não iria deixar que um simples erro arruinasse o seu pequeno segredo. Porque aquela clareira era dele. Dele e só dele.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Não, ele não é um sonho mau



Donna correu pelo labirinto até Heshian. Já estava mais do que habituada à presença dele e, para ser sincera, já não passava sem ele.

Ele estava a tocar um violino imaginário quando ela chegou. Ela riu-se. Aquele riso típico de criança. Tipicamente feliz. Tipicamente verdadeiro.

-Como estás? -perguntou ele, atirando o instrumento imaginário para trás das costas, e fazendo sinal para que ela se sentasse ao seu colo.
Donna sentou-se a seu lado, abraçando-o. Ele retribuiu, fazendo-lhe festas no cabelo ruivo.

Ele sorria. Tinha-se afeiçoado à rapariga.
Heshian tinha bastante poder. Os sonhos podem fazem muito durante o período em que o humano dorme. Podem influenciá-los também a fazer coisas que nunca imaginaram fazer, no dia-a-dia.
Mas tinha prometido a si mesmo que não a magoaria. Já que esta ficaria com ele para sempre, queria tratá-la bem. E o seu receio no início, de que ela não gostasse dele, foi desaparecendo.

Poderíamos dizer que Heshian não era um santo. Milhares de ideias passavam pela sua cabeça quando não estava com Donna. Ideias assustadores, repugnantes. Porque, antes de receber a rapariga, ele tinha convivido com vários outros sonhos. Sonhos menos bonzinhos, se é que me entendem.
E tais ideias poderiam vir a ser concretizadas, se ele visitasse mais gente.
Mas com Donna era diferente. Heshian gostava realmente dela.

-Eu estou bem, Heshi. E tu?

Talvez mais do que deveria.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Uma protecção quase indesejada



Isiam pegava no tabuleiro e dirigia-se para uma mesa no refeitório. Só não sabia ele que essa tinha já dono.
Sentou-se num dos bancos e, já preparado para começar o almoço, viu um grupo de rapazes aproximarem-se dele.

-Hey, miúdo. Essa é a nossa mesa. Sai.

Os olhares ameaçadores não o deixaram amedrontado, apenas espantado. Isiam tirou os talheres do tabuleiro e preparava-se para comer.

-Que eu saiba as mesas não têm lugares marcados. Escolham outra.

A voz do rapaz foi ouvida pelo seu admirador. Alois passava também por ali, de tabuleiro na mão, e desvaneceu qualquer vestígio de sorriso que pudesse ter quando ouviu as vozes enraivecidas dos colegas, que o tentavam enxotar. Pousou o seu tabuleiro numa mesa perto dali.

-Não penses que podes ficar com tudo o que queres só porque acabaste de chegar. As coisas aqui conquistam-se.

Alois franziu o sobrolho e depressa se meteu entre o grupo do conflito, enfurecido.

-Saiam daqui. -gritou, olhando directamente para o mais velho do grupo.
-Porquê? -perguntou o desafiado, num tom provocador.
-Estás a questionar-me? -perguntou, adoçando a sua voz e sorrindo para o outro.

Hierarquia.
Donna mandava em todos eles. Todos lhe tinham respeito. Alois não era propriamente o rei da zona, mas era o único a ter a protecção quase total de Donna. Isso trazia-lhe vantagens. Ninguém poderia brincar com ele. Nesse momento, soube-lhe muitíssimo bem. O ser poderoso.

Isiam viu, espantado, o pequeno grupo a afastar-se e a escolher outra mesa, na outra ponta do refeitório. Tinham-se calado, perante Alois, embora tivessem partido a falar mal dele pelas costas. Nada disso o incomodava.

-Tem... tem cuidado.
Foi a única frase que lhe dirigiu. Voltou a pegar no seu tabuleiro e foi sentar-se perto de Donna.

Ele não queria ser protegido, e pensava que não tinha necessidade disso.
Por um lado, sentia-se confortável, ali sozinho e sem o grupo a mandá-lo embora.
Por outro lado, sentia-se um fraco. Por não se defender sozinho e por ter de ser um loiro exibicionista a fazê-lo.

Uma pequena enfermeira



-Chegou mais uma, George.

O jovem viu a secretária entrar no escritório com um monte de papéis nas mãos. Ela olhou para Jack, que se encontrava sentado num canto do escritório.

-Oh, olá, Jack. O que te traz aqui? -perguntou ela, sorrindo.
George encolheu os ombros enquanto aceitava os papéis da rapariga.
-Veio cá tratar de negócios, Lorraine. Negócios relacionados com a Jewel...
-Jewel Days, exactamente. -interveio Jack, sorrindo.

Era raro Jack vir à cidade tratar desses assuntos, mas era algo necessário. Lorraine sorriu para ele. Jack, com o olhar fixo no corredor, viu uma rapariga que aparentava ter cerca de dezassete anos. Tinha o comprido cabelo castanho preso numa longa trança atrás das costas, pele clara e usava óculos pretos de forma rectangular.

-A idade vai atrasar o processo. Vai fazer dezoito anos para o ano e será meio difícil encontrar vaga para ela. -continuou Lorraine para George, ignorando o facto de a rapariga estar a ouvir tudo do lado de fora.
Jack viu-a suspirar, triste.

-Talvez a aceitem no que abriu há pouco tempo, não? Ela contou-me também que percebe de enfermaria porque o sei pai era médico.

George examinava atentamente os documentos da jovem. A rapariga sentou-se num banco, ficando de frente para a porta e de frente para Jack, que lhe sorriu. Ela retribuiu, corando um pouco.

-Disse-me que queria muito poder ir trabalhar e que não queria ir para um orfanato. Mas cada um tem de enfrentar o seu destino, não é mesmo? -observou Lorraine.

Jack levantou-se e, sob o olhar curioso dos dois adultos, saiu do escritório para se ir sentar no banco ao lado da rapariga. Os seus olhos tristes, de um tom azul esverdeado, observavam Jack atentamente.

-Como é que te chamas? - perguntou ele, delicadamente, e pegando-lhe na mão.
-Waliay. -respondeu timidamente.
-E não queres ir viver para um orfanato, não é?
-Não quero ser tratada como um peso, como alguém sem utilidade. Queria ir trabalhar, para não dar trabalho a ninguém. Não quero ser um problema.

As suas palavras, na sua voz doce, tocaram Jack. Mas mais do que as palavras, era a mistura entre tristeza e esperança no seu olhar. Ela parecia um pouco embaraçada por tê-lo a falar com ela, mas ainda assim mostrou o que sentia.

-Ainda és nova, como sabes, mas penso que posso fazer algo por ti. Queres vir trabalhar como enfermeira para o meu orfanato?


Os olhos de Waliay brilhavam sempre que se lembrava desse dia. E cada vez o imaginava mais bonito. Cada vez com mais um sorriso de Jack. Mais uma palavra bonita do jovem.
Só acordava quando ouvia alguém a chamar por ela. E aí, ajeitava o seu uniforme de enfermeira e ia ajudar quem quer que precisasse de ajuda. Sempre com um sorriso no rosto.

domingo, 1 de abril de 2012

Entendê-lo-ei um dia



Isiam ficara um tanto quanto perturbado com a conversa de Alois. Sentia necessidade de saber mais sobre ele, mas não tinha gostado particularmente da faceta que ele lhe tinha mostrado.
Donna, sentada a seu lado, sentiu a sua inquietação.

-Tens algum problema? -perguntou, na sua voz calma e doce.


Isiam olhou para ela e sorriu, acenando negativamente com a cabeça. Sabia que ela era alguém em quem podia confiar, mas pensou que era ainda cedo para lhe falar do que tinha achado do pessoal do orfanato.

-Sabes que se tiveres algum problema podes vir falar comigo, não sabes? -insistiu, pousando a sua mão na perna dele.
-Eu sei, Donna.

Ele estava agradecido por tamanha hospitalidade da parte dela. Via que ela tentava de tudo para que ele se sentisse em casa, mas ele ainda não se sentia à vontade. Ela olhou-o nos olhos, com ar sério.

-Estás estranho, Isiam. O que aconteceu? Deixa-me adivinhar, encontraste o Alois?

Isiam ficou surpreso. Ela, com a sua conversa e maneira de interagir com ele, parecia conhecê-lo havia algum tempo, apesar de ele apenas ter chegado nesse dia. Ele nem tinha ideia do quão profundamente Donna o conhecia.

-Podes falar-me sobre ele? Ele dá a entender que todos aqui são inferiores... Porquê?

Donna sorriu levemente, contente pela curiosidade do novo amigo.

-A resposta a essa e a outras perguntas chegará mais tarde. Acredito que conseguirás descobri-las sozinho.