sábado, 21 de abril de 2012

Conversas de noite



Isiam fitava o tecto, no escuro. O silêncio preenchia o quarto. As palavras de Alois quebraram-no, para infelicidade do outro.

-Tenho frio. -queixava-se, do colchão estendido no chão ao lado da cama de Isiam.
-Há cobertores no armário. Levanta-te e vai lá buscá-los. -respondia-lhe Isiam, virando-se para o lado da parede.

Alois ficou calado por um bom bocado, e não se mexeu. Não tencionava de todo ir buscar os cobertores. Isiam ouviu o colchão mexer-se e pensou que Alois se tinha levantado para ir ao armário. Enganava-se.
Virou-se novamente, e deu de caras com o loiro, que se tinha sentado no seu colchão e pousado a cabeça à ponta da cama.

-E se criássemos um clube? -sugeriu, animado. Isiam revirou os olhos, aborrecido.
-Um clube?
-Não um clube como os das miúdas, um clube de investigação. Investigávamos tudo o que acontece de estranho aqui, no orfanato.

Isiam riu-se. Outra ideia louca que provavelmente cairia no esquecimento, pensou. Mas não desta vez. Desta vez, o loiro estava decidido.

-Ajudávamos a Donna e o Jack quando eles precisavam. Informações, talvez também. Investigávamos sobre isso e depois contávamos à chefe. Ela poderia contar connosco para o que fosse preciso. E talvez conseguíssemos com isso mais visitas à cidade! -continuava, entusiasmado.

Isiam respirou fundo e fitou Alois, às escuras. Não queria ser arrastado para um dos seus planos idiotas.

-O que me dizes? Podíamos ser assim uma boa ajuda para a Donna, não concordas? Só nós dois, sem mais ninguém. Não me vais dizer que não, ou vais? -perguntou, excitado como uma criança.

Isiam não gostava do rumo que a conversa tinha tomado. Virou-se para o outro lado, ficando de costas para Alois.

-Vou. Deixa-me dormir. -disse, chateado.

A resposta manteve Alois calado durante vários minutos. Dava tudo para subir para a cama a seu lado. Para abraçar o corpo lá deitado. Mas sabia controlar-se, sabia que Isiam não iria responder da melhor maneira.

-Tenho frio.

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