segunda-feira, 2 de abril de 2012

Uma protecção quase indesejada



Isiam pegava no tabuleiro e dirigia-se para uma mesa no refeitório. Só não sabia ele que essa tinha já dono.
Sentou-se num dos bancos e, já preparado para começar o almoço, viu um grupo de rapazes aproximarem-se dele.

-Hey, miúdo. Essa é a nossa mesa. Sai.

Os olhares ameaçadores não o deixaram amedrontado, apenas espantado. Isiam tirou os talheres do tabuleiro e preparava-se para comer.

-Que eu saiba as mesas não têm lugares marcados. Escolham outra.

A voz do rapaz foi ouvida pelo seu admirador. Alois passava também por ali, de tabuleiro na mão, e desvaneceu qualquer vestígio de sorriso que pudesse ter quando ouviu as vozes enraivecidas dos colegas, que o tentavam enxotar. Pousou o seu tabuleiro numa mesa perto dali.

-Não penses que podes ficar com tudo o que queres só porque acabaste de chegar. As coisas aqui conquistam-se.

Alois franziu o sobrolho e depressa se meteu entre o grupo do conflito, enfurecido.

-Saiam daqui. -gritou, olhando directamente para o mais velho do grupo.
-Porquê? -perguntou o desafiado, num tom provocador.
-Estás a questionar-me? -perguntou, adoçando a sua voz e sorrindo para o outro.

Hierarquia.
Donna mandava em todos eles. Todos lhe tinham respeito. Alois não era propriamente o rei da zona, mas era o único a ter a protecção quase total de Donna. Isso trazia-lhe vantagens. Ninguém poderia brincar com ele. Nesse momento, soube-lhe muitíssimo bem. O ser poderoso.

Isiam viu, espantado, o pequeno grupo a afastar-se e a escolher outra mesa, na outra ponta do refeitório. Tinham-se calado, perante Alois, embora tivessem partido a falar mal dele pelas costas. Nada disso o incomodava.

-Tem... tem cuidado.
Foi a única frase que lhe dirigiu. Voltou a pegar no seu tabuleiro e foi sentar-se perto de Donna.

Ele não queria ser protegido, e pensava que não tinha necessidade disso.
Por um lado, sentia-se confortável, ali sozinho e sem o grupo a mandá-lo embora.
Por outro lado, sentia-se um fraco. Por não se defender sozinho e por ter de ser um loiro exibicionista a fazê-lo.

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