terça-feira, 7 de agosto de 2012

Era impossível continuar a vê-lo chorar

-Era eu que estava com ele lá em baixo, Alois.

Alois olhou para Isiam. As lágrimas já quase secavam na sua cara, mas voltou a sentir uma dor no peito. Sentia-se, de certo modo, traído. E confuso. Isiam também não estava a entender. Tomoya estava a arruinar o que tinham planeado e provavelmente a estragar as relações que todos tinham entre si. Um pouco receoso que as culpas caíssem sobre Isiam, que tinha sido também apanhado de surpresa, Tomoya adiantou-se.

-Mas ele não tem culpa. Fui eu que lhe pedi para colaborar comigo.

Enquanto Tomoya falava, Alois fitava Isiam, magoado. Não entendia o objectivo daquilo se, no fim, acabariam por se descair à sua frente. Diversão, talvez? Mas Tomoya parecia muito nervoso, não muito divertido. E Isiam sentiu-se metido em sarilhos, sem grande explicação que pudesse dar a Alois. Sentia um aperto no coração por vê-lo quase a chorar, novamente. Eram raras as vezes em que o vira chorar. Doía-lhe ainda mais ser o causador daquelas lágrimas.

-Não preciso de ti aqui. Melhor, não te quero aqui. Sai daqui, Tomoya! -gritou, apontando para a saída. O facto de não lhe chamar "Tommy" também o assustava, mas não queria saber disso naquele momento -Sai! -repetiu, por não ter obtido reação à primeira.

O rapaz obedeceu, sob o olhar preocupado de Isiam, que deveria receber o sermão sozinho. Pesados segundos até a porta se fechar atrás dele, quando voltou a encarar Alois. Agora já não olhava para ele. Fitava o chão. Isiam conseguiu destingir as lágrimas a caírem por detrás dos seus cabelos loiros.

-Isiam... Porquê? Para que foi tudo isto? Responde-me agora, por favor. -pediu, em voz baixa.

Isiam, que permanecia gelado a uns três metros de Alois, estremeceu. O outro idiota tinha-lo deixado sozinho, sem grande coisa para dizer. Excelente.

-Eu... 

Isiam hesitava tanto que as palavras teimavam em não sair da sua boca de forma nenhuma. Excelente hora para não conseguir terminar as frases. Alois levantou a cabeça e olhou para ele.

-Mesmo sabendo que gosto tanto de ti? Para que foi isto? Explica-me. Para... para desistir de ti? Era esse o objectivo?
-Nós sabíamos que te ias magoar. Mas se depois o Tomoya ficasse com o caminho livre... Poderias ser mais feliz com ele...

Alois tapou a cara com as mãos, incrédulo com o que acabara de ouvir. Quem era ele para decidir com quem seria mais feliz? E seria realmente mais feliz com alguém que era capaz de tudo para conseguir o que queria? Alguém que não olhava a meios para atingir os seus fins? Magoasse quem magoasse?

-Isiam... És tu que decides com quem eu serei mais feliz? Eu não posso... escolher? 

Isiam encolheu-se e baixou a cabeça, envergonhado. Alois tinha razão. Não era ele que devia decidir nada. Ele sabia que ia dar asneira, mas mesmo assim aceitara. Ele também não tinha estado bem, apesar da ideia não ter partido dele. Alois soluçou. Isiam sentiu-se sufocar. Vê-lo tão em baixo, ainda por cima por sua causa, deixava-o demasiado magoado do que o que gostaria de admitir.

-Alois, desculpa... Na altura pensei que não fosse má ideia. Mas agora, ao ver-te assim... -gemeu, aproximando-se do mais alto.

Alois observou-o aproximar-se. Quando estava já suficientemente perto, levantou o braço e limpou-lhe as lágrimas dos olhos com os polegares. O coração de Alois parou por instantes.

- ... não consigo ver-te chorar. -murmurou-lhe, reparando no olhar do outro sobre si e apercebendo-se de que estava já demasiado perto. Baixou o braço e encolheu-se ligeiramente, olhando para baixo.

Alois sentia a respiração do mais novo já muito perto de si. Talvez...

Levantou o queixo dele suavemente com o indicador, olhando-o nos olhos. Isiam respirou fundo, nervoso.
Alois aproximou a sua cara da de Isiam, com medo de que estivesse a fazer asneira. O mais provável seria ser rejeitado, como das inúmeras vezes anteriores. Mas Isiam fechou os olhos, ao aproximar os seus lábios dos do loiro. 

Lágrimas



 Um pequeno rapaz de coração partido correu para o quarto. Correu para o quarto e chorou. E uma rapariga que tinha observado a cena anterior correu atrás dele. Ela também não entendia. Aquilo que ela tinha criado, que tinha planeado, estava agora em risco por causa do mascarado misterioso. Também ela se sentia triste, mas sabia que o loiro se sentia muito pior. E embora soubesse que não podia fazer ou dizer nada que o ajudasse, continuou a seu lado.

Não demorou muito a que batessem à porta. Saiu Donna para dar a vez a Tomoya, já sem disfarce. Vinha falsamente consolar o amigo, porque supostamente tinha assistido à cena e se sentia triste por ele. Limpou-lhe as lágrimas da cara e aproximou-se dele.

-Como é que ele foi capaz? -soluçou, deixando-se ser consolado.

Tomoya não respondeu. Ele bem sabia como era difícil ter a pessoa que amava perto de outro alguém. As lágrimas quentes de Alois atingiam-lhe os ombros do casaco e o rapaz praticamente tremia. De nada valia pedir para se acalmar. Isiam sabia que Alois o adorava e receber um desgosto assim era um golpe terrível. 
Era suposto isto acontecer, mas Tomoya achou que vê-lo sofrer assim custava demasiado. E, lá bem no fundo, começou a aparecer um novo sentimento. Arrependimento.

-Alois, desculpa. Eu... eu já volto. -informou, afastando-se a custo dele e saindo do quarto. Naquele momento, decidiu deitar tudo a perder, o que viria a impressionar Isiam mais tarde. Não conseguia deixá-lo a sofrer assim. Não eram as suas lágrimas habituais, que por vários motivos caíam. Estavam carregadas de dor. Uma dor que nunca tinha observado nele, Alois.

Um confuso Alois viu entrar no quarto, minutos depois, Tomoya e Isiam.

-Alois, tenho uma confissão a fazer. Era eu que estava com ele no baile.

Não acredito nos meus olhos



Alois estava de vestido bordeaux comprido, feito por Donna, um laço da mesma cor no cabelo e e uma máscara dourada, que combinava com o seu cabelo. A recusa de Isiam sobre a ida com ele ao baile não o tinha abalado muito, porque já devia estar à espera. Por maiores que fossem as suas esperanças, Alois sabia que Isiam nunca iria aceitar o seu pedido. 

Olhava para a pequena multidão no salão, esperando encontrar alguém conhecido. Ou esperando encontrar Isiam. Queria saber como é que ele vinha vestido. Porque o teimoso não lhe tinha contado nada sobre a sua roupa até ali. Um pequeno sorriso abriu-se no seu rosto, pela impaciência e ansiedade que começava a sentir.

E depois, viu-o ao longe. O seu maravilhoso fato negro tingido de 'sangue' não não chegou a ser apreciado, porque Alois apercebeu-se de algo terrível. Isiam não vinha sozinho. 

«Porquê?»

-Isiam, quem é esse teu amigo? -perguntou, quando se aproximou deles. Tomoya estava totalmente coberto, pela máscara, fato e capuz. O estranho mascarado sorriu por detrás da máscara ao vê-lo tão nervoso.
Isiam segurava Tomoya pelo braço e, embora não fosse bom a mentir ou a representar, dava o seu melhor para que o loiro não notasse nada de estranho no cenário.

-Gostaria que não nos incomodasse esta noite. Porque esta noite ele tem dono. -informou o mascarado, em tom sério, provavelmente disfarçando a voz.

«O quê? Como assim?»

Alois franziu o sobrolho, começando a não achar muita piada à cena. Deixava-o ainda mais nervoso o facto de Isiam não reagir.

-Isiam, responde-me! -ordenou, elevando o tom de voz.
-Alois, por favor. Não nos incomodes. -respondeu, com alguma frieza, fazendo por não trocar olhares com Alois.

Algo não estava bem, ele percebeu. Porque é que ele não sabia de nada?

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Não podes recusar


-Ir contigo ao baile? Mas que raio é que eu ganho com isso? -perguntou Isiam, bocejando, visivelmente irritado por ter sido acordado.
-Se ele acreditar que não estás realmente interessado nele... -tentou explicar Tomoya.
-Ficará muito magoado. -interrompeu-o o mais baixo, tentando entender os pontos positivos do plano.

Tomoya franziu o sobrolho, ao ter sido interrompido. Perguntava-se o porquê de isso o impedir de o ajudar.

-Talvez. Mas com o tempo a mágoa desaparece. E aí eu terei o caminho livre.
-Novamente, quais são as minhas vantagens?
-Ele desistirá de ti e não te chateará mais. Queres mais?

Isiam olhou para Tomoya, pensativo. Este permanecia de braços cruzados a olhar para ele, como que à espera de uma resposta. Não estava a achar muita piada à hesitação de Isiam.

-Mas entendo que não me queiras ajudar. Afinal, todos sabem que gostas dele. E que não gostas minimamente de mim. -declarou, virando costas para se ir embora, sorrindo maliciosamente sem que o outro notasse.
-O quê? I-isso não é verdade! -gritou, puxando Tomoya pelo braço.
-Então... não vejo que problemas poderás ter por colaborar comigo.

Isiam olhou-o, zangado. Tomoya sorria, já à espera da confirmação do rapaz. Talvez Tomoya tivesse razão. Ele não gostava de Alois. Por isso, não tinha nada a perder. Só estava a ajudar um amigo a ser feliz, num futuro próximo. Não era tão má ideia assim como parecia de início. Porque não?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Hey, Isiam, tenho uma proposta para ti




Comprados alguns fatos e máscaras no centro de Londres, os rapazes regressavam ao orfanato. Donna tinha ido com alguns, também, embora tivesse já decidido que seria ela a fazer o seu próprio fato. E o de Alois.

E, entretanto, Tomoya organizava o seu pequeno plano. A pior parte seria o começo. Se arranjasse coragem para falar com Isiam, talvez corresse tudo bem. Talvez ele aceitasse colaborar com ele. Não havia de custar muito, certo? O 'não' estava já garantido, não tinha muito a perder se fosse falar com ele.

Quando o dia do baile já estava próximo, levantou-se cedo, arranjou-se e saiu do quarto. Caminhava lentamente pelo corredor do primeiro andar enquanto pensava no que iria dizer. A sua relação com Isiam não era das melhores, tinha de admitir. O truque seria apresentar-lhe as razões certas para ele colaborar.

Bateu à porta, ligeiramente nervoso. Temia também que o rapaz ainda estivesse a dormir.

-Isiam?

terça-feira, 24 de julho de 2012

Um baile?




Donna afixava papéis no painel de notícias da Jewel Days quando foi surpreendida por Tomoya.

-Então? O que vem aí? -perguntou, curvando-se de maneira a estar perto do ombro da pequena.
-Oh. -riu-se baixinho, contente pela presença do rapaz ali- Eu pedi ao Jack para prepararmos um baile.
-Um baile?
-Um baile de máscaras. -explicou ela, sorrindo.

Tomoya olhava para Donna e para os papéis enquanto esta os afixava. Dança, música e pessoas mascaradas não era de todo uma má ideia.
Ainda faltava bastante, segundo o anúncio. Teria tempo para ver quem ia, para arranjar o seu fato e a sua máscara e para trabalhar num possível plano. Plano esse que arruinaria um monte de relações. E de pessoas, talvez.

Conversas podem mudar muita coisa



Por vezes tem-se medo de mudar a situação actual das coisas. Tem-se medo de avançar, de falar. E muitas das vezes fingimos que esquecemos o que fizemos. Para não ter de mudar nada. Para não ter de avançar.

Isiam optou por essa saída.

Os dias passaram e Alois não tocou na conversa que deixara por acabar. Ele percebia que Isiam queria esquecer o diálogo, e que iria ficar embaraçado caso o loiro trouxesse o assunto ao de cimo outra vez. Mas algo tinha mudado. Pelo menos, ele já sabia que Isiam se sentia magoado por causa de Tomoya.
E o que é certo é que as rejeições ao comportamento compulsivo de Tomoya começaram a aumentar.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O que aconteceu?



Alois tinha ficado de levar o livro esquecido ao quarto deste, à tarde.

-Obrigado. -agradeceu Isiam, secamente, preparando-se para o despachar e para fechar a porta do seu quarto. Alois travou-a com a mão.

-Vais mandar-me embora assim? -perguntou, com um olhar inocente.
-Tens mais alguma coisa para mim? -chutou Isiam, áspero.

Alois olhou-o nos olhos. Olhos mais frios do que o costume. Mais insensíveis. Murmurou um hesitante "Não...".

-Então podes ir embora. Não fazes cá falta. -atirou, desviando rapidamente o olhar.

Alois voltou a empurrar a porta com a mão, pois Isiam estava determinado em fechá-la. As suas palavras, especialmente as da última frase, foram pronunciadas com um quê de sarcasmo e frieza.
Alois fez ainda mais força na porta até conseguir entrar no quarto. Isiam acabou por ceder e ficou a olhá-lo quando ele conseguiu entrar.

-O que queres?
-Isiam, o que tens? -perguntou Alois, verdadeiramente preocupado, ignorando a pergunta do rapaz.
-Como assim, "o que tenho"? Eu estou bem.
-Não, não estás. O que aconteceu? Queres que te faça companhia?


Isiam olhou para Alois com um certo desprezo. Um breve silêncio instalou-se no quarto.

-Não. Não quero companhia. Vai fazer companhia ao teu amiguinho! -gritou, voltando a desviar o olhar.

Alois pareceu espantado. Pela súbita mudança de tom de voz e pela conversa. O silêncio que se voltou a instalar nos segundos seguintes era assustador.

-C-como assim? Isiam...

Alois aproximou-se de um Isiam quase encolhido de medo e vergonha. Pousou delicadamente um braço à volta dos ombros de Isiam.

-Isiam, isso são... ciúmes?


Isiam olhou-o, meio zangado e meio preocupado. Não. Claro que não. Não podia ser. Afastou-o bruscamente, em direção à porta do quarto.

-Não, Alois! Só acho que podias ter-me contado. Vai ter com ele agora, deixa-me em paz.

Não tenho nada com isso




-O que há entre vocês? Ou o que houve? -perguntou o mais baixo, com os braços à volta dos próprios joelhos, numa das poltronas da sala, tentando não parecer muito interessado.
Tomoya olhou para Isiam, surpreendido pela pergunta súbita.

-Só uns beijos, nada mais. -disse, encolhendo os ombros.

Isiam não conseguiria forçar sorrisos naquele momento, muito menos para Tomoya, por isso limitou-se a manter o olhar fixo no chão e a apertar as pernas contra si.

-Agora, se não te importas, tenho de me ir deitar. -informou o rapaz, ignorando a falta de reação de Isiam e atravessando a sala para subir para os quartos.

A notícia não era nada de que Isiam não estivesse à espera, ele sabia-o. Mas ter a confirmação é normalmente pior do que apenas pressentir.
A Isiam não lhe agradava nada a ideia de se sentir chocado, ou abalado, com a confirmação de um leve pressentimento. Porque ele não tinha nada a ver com o assunto. O loiro não tinha nada que lhe contar isso. E até seria bom, porque deixaria de se preocupar com Alois por algum tempo. Era até uma boa notícia, no fim de contas.

...certo?

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Não sei o que se passa


Isiam estava ali sentado, perto da janela, a ouvir o vento passar perto dele, do lado de fora. A sentir mais uma vez saudades da vida que tivera no passado. Mas, como já era seu hábito, tentava manter-se frio, resistente. Tentava concentrar-se no presente. O que também não era muito melhor.

Seria possível sentir-se esquecido? O tempo que Alois passava a incomodá-lo e a persegui-lo tinha diminuído bestialmente. O loiro parecia estar mais ocupado. Mas isso não era bom?

Fechou os olhos por instantes ao pensar nisso. Respirou fundo. 

Aquele idiota estava finalmente a esquecê-lo, ou pelo menos era o que Isiam pensava. Forçou um sorriso, ao tentar convencer-se dessa ideia, mas não por muito tempo, porque sentia que algo lhe estava a escapar.

sábado, 5 de maio de 2012

Confissões


O amor não se consegue controlar. Pelo menos, na maioria das vezes.

O rapaz tremia, nervoso. Não costumava estar assim, não era próprio dele. Mas o que é certo é que as circunstâncias tinham mudado um pouco.

-Alois...

Há quem acredite no amor à primeira vista, há também quem não o faça. Cada um tem a sua opinião, que provavelmente muda consoante a experiência de vida. Muda conforme o que já viveu e passou.

O loiro olhava-o com espanto. Nunca tinha visto o novato tão nervoso. Ele, Tomoya, que era sempre confiante e calmo. Estava para saber o que o outro tinha a dizer. 

-O que foi?

Alois não acreditava. Ou pelo menos era o que dizia, era a teoria. Porque também com ele tinha acontecido algo relacionado a isso. Isiam sabia-o. 

Tomoya levantou timidamente o olhar para o outro. Provavelmente ia dizer algo de que se viria a arrepender, mais tarde. Ou não, quem sabe?

-Alois, eu estou interessado em ti.

Provavelmente não foram exactamente estas as palavras que Tomoya proferiu, quebrando o silêncio da manhã. A cena foi passada tantas vezes na mente de Alois que nem este sabia já dizer bem o que se tinha passado.

O silêncio pode arrasar corações, também. Mas há quem não desista. Tomoya não ia desistir.

domingo, 29 de abril de 2012

Desta vez não fui eu




Donna recebeu a notícia de que iria chegar em breve outro rapaz. E desta vez ela não tinha mexido nas cordas por detrás do cenário. Donna não conhecia este rapaz, de todo.

O seu nome era Tomoya Okazaki e Donna gostou de o conhecer. Falou sobre ele a Heshian e este mostrou interesse no rapaz. Algo lhe dizia que ele viria a causar alguns problemas no calmo quotidiano do orfanato.

Heshian tinha razão.

-Pelos vistos, sou o novo órfão de Jewel Days. -dizia, quando chegava à entrada com Donna. Os outros aproximaram-se dele. Ryden, Isiam e Alois cumprimentaram o novo morador.

E provavelmente aí começaram os problemas. Isiam sorriu. Isiam disse que lamentava a morte dos pais do novo rapaz. Isiam estendeu-lhe a mão. Como devem calcular, houve alguém a não gostar. E houve alguém a ser frio para o novato, que embora um ano mais velho, parecia bastante nervoso. 

As conversas ao lanche foram animadas. Donna planeava mostrar mais tarde o orfanato a Tomoya e este parecia contente.

Alois ainda sorria, nos primeiros momentos, mas o seu interior parecia gritar que não gostava de intrusos. E os seus gélidos olhos azuis fulminavam o novato, que aparentemente tinha conseguido as boas graças de Isiam. As quais ele nunca tinha tido. Nem um único sorriso. Ou um aperto de mão.

Heshian sorria, ao ouvir as novidades. Deveras interessantes.

É tudo uma questão de tempo



-Ainda bem que os senhores já vieram. Já não falta muito para te ires embora para o teu quarto outra vez. -comentava Isiam, visivelmente contente. Alois não respondeu. A alegria do amigo por causa do facto de ele se ir embora incomodava-o um pouco, mas tentava não deixar transparecer isso.

Isiam preparava-se para descer, para ir às aulas. Pegou nos seus livros e ajeitou-os debaixo do braço. Também era altura de Alois descer, mas este continuava sentado na cama, a olhar para o vazio.

-Não te incomoda? -perguntou, ignorando a pressa do outro.
-O quê? -perguntou Isiam.
-A desarrumação. Se eu dormisse aqui também, podia deixar isto arrumado, como o meu está. -disse, sorrindo de modo patético.
-Ah, não, obrigado pela oferta. -respondeu Isiam, frio.

«Ainda bem que não vai ficar aqui muito mais tempo», pensava Isiam. Ele sabia que por dentro daquela casca meio amarga (ou excessivamente doce, talvez), Alois era alguém com quem podia contar e sabia-lhe bem não o ter como inimigo. Mas estava já farto das suas conversas.

Alois levantou-se e pegou também ele nos seus livros. Passou por Isiam, no momento parado e perdido nos seus pensamentos, e abriu a porta. Quando estava o suficiente perto do ouvido de Isiam, falou-lhe, com um ar malicioso.

-Tu sabes que é uma questão de tempo.
-Uma questão de tempo? -perguntou-lhe, surpreendido.
-Uma questão de tempo até seres meu. -sussurrou.

domingo, 22 de abril de 2012

Não tenhas medo



-Hoje fui acordado por ele. -contava a Donna, não muito entusiasmado. Ela sorriu, contente por o ouvir.
-Disse-me que ia chegar atrasado às aulas se não me levantasse.
-E como correu a noite? Ele não te chateou? -perguntou, interessada.
-Por mais estranho que possa achar, não. Tirando uma conversa sobre investigações, um pouco depois de nos deitarmos.

Donna riu-se. Conhecendo Alois como conhecia, espantava-lhe saber que ele não tinha passado dos limites. E, ao mesmo tempo, sabia o porquê de tal não ter acontecido.

-E tu. -chamou ela, sentando-se no seu colo. -Estás bem?

Isiam agarrou-a e sorriu-lhe. Sabia-lhe bem ter uma amiga que se preocupava com ele. Respirou fundo e olhou para ela, sério.

-Estou. Embora continue com medo, estou bem.

Medo. Isiam tinha medo. Medo de Alois. Mas não só medo daquilo que Alois pudesse tentar fazer. Tinha medo de amar, ou de voltar a amar.

-Não te preocupes, ele não deve ficar muito tempo. -tentava Donna alegrá-lo.

sábado, 21 de abril de 2012

Conversas de noite



Isiam fitava o tecto, no escuro. O silêncio preenchia o quarto. As palavras de Alois quebraram-no, para infelicidade do outro.

-Tenho frio. -queixava-se, do colchão estendido no chão ao lado da cama de Isiam.
-Há cobertores no armário. Levanta-te e vai lá buscá-los. -respondia-lhe Isiam, virando-se para o lado da parede.

Alois ficou calado por um bom bocado, e não se mexeu. Não tencionava de todo ir buscar os cobertores. Isiam ouviu o colchão mexer-se e pensou que Alois se tinha levantado para ir ao armário. Enganava-se.
Virou-se novamente, e deu de caras com o loiro, que se tinha sentado no seu colchão e pousado a cabeça à ponta da cama.

-E se criássemos um clube? -sugeriu, animado. Isiam revirou os olhos, aborrecido.
-Um clube?
-Não um clube como os das miúdas, um clube de investigação. Investigávamos tudo o que acontece de estranho aqui, no orfanato.

Isiam riu-se. Outra ideia louca que provavelmente cairia no esquecimento, pensou. Mas não desta vez. Desta vez, o loiro estava decidido.

-Ajudávamos a Donna e o Jack quando eles precisavam. Informações, talvez também. Investigávamos sobre isso e depois contávamos à chefe. Ela poderia contar connosco para o que fosse preciso. E talvez conseguíssemos com isso mais visitas à cidade! -continuava, entusiasmado.

Isiam respirou fundo e fitou Alois, às escuras. Não queria ser arrastado para um dos seus planos idiotas.

-O que me dizes? Podíamos ser assim uma boa ajuda para a Donna, não concordas? Só nós dois, sem mais ninguém. Não me vais dizer que não, ou vais? -perguntou, excitado como uma criança.

Isiam não gostava do rumo que a conversa tinha tomado. Virou-se para o outro lado, ficando de costas para Alois.

-Vou. Deixa-me dormir. -disse, chateado.

A resposta manteve Alois calado durante vários minutos. Dava tudo para subir para a cama a seu lado. Para abraçar o corpo lá deitado. Mas sabia controlar-se, sabia que Isiam não iria responder da melhor maneira.

-Tenho frio.

Há limites, não abuses



-Já me contaram que sugeriste que fosse dormir lá fora. -comentou Alois, rindo-se.

Isiam revirou os olhos, sentando-se na cadeira em frente da sua secretária. O loiro continuava sentado na sua cama, embora o colchão estivesse já estendido e arranjado.

-Fico contente por poder dormir aqui. -continuou, sorrindo.
-Não penses que cá ficas muito tempo. -resmungou Isiam, contrariado.

Alois olhou-o, inexpressivo. Ele sabia-o mas, naquele momento, esperava com toda a força e vontade que o problema com os canos do seu quarto demorasse a ser resolvido. Embora soubesse que a água poderia estragar alguns dos móveis e objectos que lá tinham ficado, não se importava.

-E se tentares alguma coisa, és expulso daqui. Se ultrapassares os limites, irei conversar com o Jack. Acho que ele não ia gostar muito de saber que estás aqui por favor e que mesmo assim não te sabes comportar. -avisou Isiam, nervoso.

Alois riu-se para si. Isiam parecia realmente inquieto e agitado com tudo aquilo. Não parecia muito contente.

-Não te vou fazer nada, tem calma. -tentou-o tranquilizar.

Isiam calou-se e ficou a observar o amigo durante alguns instantes. O loiro olhou para ele e sorriu. Não com o seu habitual sorriso malicioso e um tanto malvado, mas com um sorriso sincero, calmo.

-Obrigado. -disse, em voz baixa.

Isiam olhou para ele espantado. Não era comum Alois agradecer, ou pedir desculpa.

-Obrigado por me deixares ficar.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pedidos e reacções



Isiam foi chamado ao escritório de Jack. Donna disse-lhe para não se preocupar, que não era nada importante.

-Porque me chamaste? -perguntou o rapaz, ao entrar no escritório, um pouco nervoso.
-Canalizações. -disse, olhando Isiam despreocupadamente - Senta-te. Preciso de te fazer um pedido. -acrescentou, antes que o jovem pudesse perguntar alguma coisa.

Isiam sentou-se, curioso.

-Houve um problema com as torneiras do quarto do Alois. E agora há uma pequena inundação. Já contactámos os técnicos, mas eles poderão demorar um pouco a chegar e a resolver o problema. -explicou.

Isso explicava a cena que Isiam tinha visto de manhã. Riu-se baixinho, ainda curioso para saber o que é que ele tinha a ver com o assunto.

-Fui confirmar os quartos e... -continuava Jack.
-Em que parte é que eu entro? -perguntou Isiam, impaciente.
-Posso acabar? -perguntou Jack, com alguma severidade.

Isiam calou-se e baixou a cabeça, como que pedindo desculpa.

-O teu quarto e o dele são os maiores quartos com apenas uma pessoa. Queria perguntar-te se não te importavas que ele ficasse no teu quarto, só enquanto o dele não...
-O quê? P-porquê?!

Isiam levantou-se, meio indignado, meio espantado. Jack suspirou. Já esperava aquela reacção. Donna tinha-o avisado.

-Ouve, não estou a impor nada, estou apenas a pedir. A Donna disse-me que tu provavelmente não ias aceitar, e eu tentei ver mais alguns mas achei que o teu quarto era a melhor opção. Isto porque é o que tem mais espaço livre.

Isiam olhou-o com algum desespero, mas manteve-se calado.

-Achei que um colchão a um canto iria incomodar-te menos do que aos outros. Percebes ao menos o meu lado?
-Ele não podia ficar no corredor? Ou, não sei, talvez lá fora... -pedia Isiam, a brincar um pouco com a situação, para se tentar ver livre do loiro.
-Se ele ultrapassar os limites estabelecidos por ti, vens falar comigo. Mas eu percebo se não quiseres. Eu posso pedir aos outros ou tentar arrumar os móveis dos quartos livres...

Isiam suspirou, esfregando a cara com as mãos. Jack estava a conseguir o que queria.

-Não, deixa estar. Ele que fique comigo. -acabou por concordar, embora não muito contente.

Afinal, era um pedido de Jack. E o loiro não deveria ficar lá muito tempo. Ou pelo menos era o que ele esperava.

sábado, 14 de abril de 2012

Há males que vêm por bem



Isiam folheava um caderno no corredor quando viu passar Alois a seu lado, de pijama e encharcado. Antes que lhe perguntasse o que tinha acontecido, o loiro dirigiu-lhe a palavra.

-Agora não, tenho de ir falar com o Jack.

Jack ouviu a porta do seu escritório abrir-se depressa e a fechar-se com violência. Alois pousou as mãos na secretária de Jack.

-Hey, não molhes isso. O que te aconteceu? -Jack apressou-se a afastá-lo da secretária e a afastar dele uns papéis que estavam por perto.

-Já me tinha vindo queixar da torneira. E, como não me ligaram nenhuma, hoje ela deve-se ter partido e começou a deitar água para todo o lado. -Alois estava visivelmente irritado, embora soubesse que a culpa não era de Jack - E o melhor é que não parava, e ainda deve estar aberta. O chão da casa-de-banho está todo molhado. Se isto continuar, vai inundar o quarto!

Jack esfregou a cara com as mãos, tenso. Excelente notícia para começar o dia.

-Vai secar-te e vestir-te. Vou tentar chamar alguém para tratar da torneira. Como eles costumam demorar a chegar cá, tira as coisas mais importantes do quarto e trá-las para aqui.

Alois, que agora começava a arrefecer, tiritava de frio. Acreditava que os canalizadores não chegassem ainda nesse dia e estava preocupado.
Mas não sabia ele que esse pequeno incidente lhe traria vantagens.

domingo, 8 de abril de 2012

Vais à enfermaria, sim!



-Eu estou bem, Alois, larga-me.
-Como assim, estás bem?! Olha para essa perna!
-Só tropecei, eu fico bem.
-Vê-me esse sangue todo, rapaz. Consegues andar?
-Alois!!

O loiro estava ajoelhado ao pé de Isiam, que tinha caído. A enorme ferida parecia magoar mais Alois do que Isiam, e ele insistia em levá-lo à enfermaria.
Isiam levantou-se e só quando estava realmente de pé se apercebeu da dor que aquilo causava. Mas, como é óbvio, não disse nada.

-Isto já passa, não te preocupes comigo. -disse, apertando a pele à volta da ferida do joelho, tentando disfarçar a dor.
-Como não me preocupar? Sujaste o chão de sangue. Anda mostrar isso à Waliay. -teimou, pondo o braço de Isiam nos seus ombros, para o ajudar a andar.

Segundo Isiam, Alois era muito chato, mas também havia nele qualidades e lados menos maus. Isiam sabia que ele se concentrava apenas naquilo que estava a fazer, deixando de lado todas as segundas intenções que pudesse ter. E, quando o viu a ajudá-lo, nesse momento, percebeu isso mesmo. Ele não tencionava aproveitar-se de Isiam, por estar vulnerável, apenas o queria levar à enfermaria.

-Tu sabes que és um chato, não sabes? -perguntou Isiam, revirando os olhos.
-E tu és um teimoso. -ripostou Alois, rindo-se.

-E sabes que eu te adoro, não sabes? -perguntou o loiro, olhando-o nos olhos e sorrindo.

sábado, 7 de abril de 2012

Estás preocupada, pequena?



E nessa noite, ela veio ainda mais cedo. Pergunto-me se estaria com sono quando se foi deitar.
Ela chegou e encheu o jardim com o seu sorriso. Nessa noite, não me abraçou.

-Como foi o dia, pequena? -perguntei.
-Como sempre.

Era habitual ela não me contar muito logo à primeira pergunta que eu fazia. Mas ela estava um pouco diferente do costume. Parecia preocupada.
Sentou-se ao pé de mim e ficou ali um bocado, sem dizer nada, só a balançar os pés e com a cabeça encostada ao meu corpo.
Será que não me ia contar sobre aquilo que a atormentava? Como sonho, tenho o poder de entrar nas suas memórias, e podia ir ver o que se tinha passado se fosse realmente necessário, mas prometi a mim mesmo que me ia comportar. E que ia confiar nela.

Ela parecia tão frágil, ali a meu lado. A suave brisa fazia os seus delicados cabelos ruivos esvoaçarem, assim como as pontas do seu vestido. Só de pensar naquilo que lhe poderia fazer, se não tivesse um pingo de decência no meu corpo -cof-

Eu achava-a frágil, pequena, jovem. Mas já tinha percebido que ela era diferente. Que tinha uma mentalidade um pouco diferente dos jovens da idade dela. A maneira de falar e mesmo a de pensar eram mais adultas. Ela parecia realmente ter uns dez anos, com aquele corpo. Mas aquela mente era especial.

Estar ali, ao lado dela, soube-me maravilhosamente bem. Abracei-a.

-Donna... Pareces preocupada. Não me vais contar nada?
-Oh, Heshi, não é nada. Estou só curiosa para ver como correm as coisas com os rapazes.

Beijei-lhe a cabeça, já bastante mais aliviado.

-Com o Isiam e com o Alois?
-Sim. Não sei se o Isiam gosta muito do meu loirinho.

Eu ri-me. Ela olhou para mim, e parecia perguntar-se porque me tinha rido.

-Eles hão de dar-se bem, não te preocupes.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Que ninguém lhe toque, ele é meu



Alois estava a tornar-se possessivo. Não era só a protecção, quando Isiam precisava dela. O loiro começava a tratá-lo como se ele lhe pertencesse.

Pelo lado positivo, ele podia fazer tudo o que quisesse. Digo, com as outras pessoas. Se lhe desse vontade, podia convidá-las para sair. Podia gostar delas. Mas os outros é que não lhe podiam tocar. Não o podiam convidar para lado nenhum e não podiam gostar dele.

Ele observava sempre tudo, a uma dada distância. E tinha ciúmes de todos com quem ele falava. Ciúmes de tudo em que ele tocava. Mas sabia controlar-se. Respirar e manter a calma. Desde que fosse Isiam a fazer, tocar ou falar.
Se os outros passassem o limite que ele próprio tinha estabelecido, não se importava de se levantar do lugar e dar espectáculo ali, à frente de todos.

Aos poucos, o pessoal ia aprendendo que não deveria tocar no Isiam. Porque arranjar problemas com Alois nunca fora divertido.

Isiam não fazia menos amigos por causa dele, mas todos sabiam que não se podiam aproximar mais do que aquilo. Isiam também nunca fora muito sociável, mas sentia-se preso.

De facto, Isiam não gostava do comportamento possessivo de Alois. Ele "não gostava" era pouco. Ele detestava. Mas não discutia. Apenas resmungava em voz baixa e o afastava quando era realmente preciso. Não tinha falado com Donna sobre o assunto, mas já toda a gente no orfanato se tinha apercebido da situação.

Eu não sou... teu.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ela agradece-te, Jack



Jack sabia que Waliay estava muito contente por estar ali. Sabia também que o orfanato não era o lugar ideal, sabia que ela preferia a liberdade, sabia que ela preferia trabalhar, viver sozinha e não dar problemas a ninguém.
Mas o "não ser tratada como órfã" era muito importante para ela e devia isso a Jack.
Por mais que ela não dissesse nada a respeito, Jack sabia que ela se sentia agradecida.

-Queres... queres ajuda? -perguntou ela, ao espreitar para escritório.
Jack ajeitou-se na cadeira e olhou para ela.
-Ouvi-te resmungar quando passava pelo corredor. Parecias exaltado, e como tens sempre tanto trabalho... -explicou-se Waliay, entrando e sentando-se na cadeira à frente da secretária.

Ele sorriu. Era verdade. Jack trabalhava demais, estava sempre rodeado de papéis, documentos e ficheiros. Isso deixava-o sempre um pouco nervoso. Mas não queria a ajuda dela, não era preciso.

-Não, Lian, obrigado. Mas podes fazer-me companhia, se quiseres.

Lian.

-E, ah, desculpa. Posso chamar-te Lian? É uma alcunha tão simpática!

Waliay corou. Aquilo fez o seu dia.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um lugar só teu



Era uma tarde de Outono, com uma temperatura amena e o sol quase completamente escondido atrás das nuvens. A brisa era já fresca demais para a maioria das crianças vir para a rua brincar, mas ainda havia quem gostasse de sair do ambiente um pouco monótono do orfanato.
Alois era uma dessas crianças.

Por mais incrível que pudesse parecer, ele gostava de sair à rua. Adorava o conforto do interior, mas também apreciava uns bons momentos ao ar livre.

Tinham passado alguns meses desde que tivera essa ideia. Era Verão e ele observava da janela um ou outro grupinho de raparigas a atravessar o pátio e a partir para o interior do bosque.
E, quando começou a observar com mais atenção, percebeu que se juntavam em pequenos esconderijos entre as árvores e arbustos.
E também ele quis um esconderijo.

Confesso que ele teve melhor gosto do que esses grupos de raparigas. O seu esconderijo ficava numa pequena clareira, bastante afastado do orfanato. Apenas à distância de poucos metros, havia uma pequena nascente, que formava um lago, não muito grande também.

Lá, prometeu a si mesmo que não o iria mostrar a ninguém. E que aquele lugar seria só dele. Que, quando o mau tempo do Inverno passasse, iria começar a trazer para ali algo que tornasse a clareira um pouco mais especial.

E nessa tarde, em que já muitos tinham preferido ficar lá dentro, ele saiu para a sua clareira. Como sempre, verificou se ninguém o via. Não iria deixar que um simples erro arruinasse o seu pequeno segredo. Porque aquela clareira era dele. Dele e só dele.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Não, ele não é um sonho mau



Donna correu pelo labirinto até Heshian. Já estava mais do que habituada à presença dele e, para ser sincera, já não passava sem ele.

Ele estava a tocar um violino imaginário quando ela chegou. Ela riu-se. Aquele riso típico de criança. Tipicamente feliz. Tipicamente verdadeiro.

-Como estás? -perguntou ele, atirando o instrumento imaginário para trás das costas, e fazendo sinal para que ela se sentasse ao seu colo.
Donna sentou-se a seu lado, abraçando-o. Ele retribuiu, fazendo-lhe festas no cabelo ruivo.

Ele sorria. Tinha-se afeiçoado à rapariga.
Heshian tinha bastante poder. Os sonhos podem fazem muito durante o período em que o humano dorme. Podem influenciá-los também a fazer coisas que nunca imaginaram fazer, no dia-a-dia.
Mas tinha prometido a si mesmo que não a magoaria. Já que esta ficaria com ele para sempre, queria tratá-la bem. E o seu receio no início, de que ela não gostasse dele, foi desaparecendo.

Poderíamos dizer que Heshian não era um santo. Milhares de ideias passavam pela sua cabeça quando não estava com Donna. Ideias assustadores, repugnantes. Porque, antes de receber a rapariga, ele tinha convivido com vários outros sonhos. Sonhos menos bonzinhos, se é que me entendem.
E tais ideias poderiam vir a ser concretizadas, se ele visitasse mais gente.
Mas com Donna era diferente. Heshian gostava realmente dela.

-Eu estou bem, Heshi. E tu?

Talvez mais do que deveria.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Uma protecção quase indesejada



Isiam pegava no tabuleiro e dirigia-se para uma mesa no refeitório. Só não sabia ele que essa tinha já dono.
Sentou-se num dos bancos e, já preparado para começar o almoço, viu um grupo de rapazes aproximarem-se dele.

-Hey, miúdo. Essa é a nossa mesa. Sai.

Os olhares ameaçadores não o deixaram amedrontado, apenas espantado. Isiam tirou os talheres do tabuleiro e preparava-se para comer.

-Que eu saiba as mesas não têm lugares marcados. Escolham outra.

A voz do rapaz foi ouvida pelo seu admirador. Alois passava também por ali, de tabuleiro na mão, e desvaneceu qualquer vestígio de sorriso que pudesse ter quando ouviu as vozes enraivecidas dos colegas, que o tentavam enxotar. Pousou o seu tabuleiro numa mesa perto dali.

-Não penses que podes ficar com tudo o que queres só porque acabaste de chegar. As coisas aqui conquistam-se.

Alois franziu o sobrolho e depressa se meteu entre o grupo do conflito, enfurecido.

-Saiam daqui. -gritou, olhando directamente para o mais velho do grupo.
-Porquê? -perguntou o desafiado, num tom provocador.
-Estás a questionar-me? -perguntou, adoçando a sua voz e sorrindo para o outro.

Hierarquia.
Donna mandava em todos eles. Todos lhe tinham respeito. Alois não era propriamente o rei da zona, mas era o único a ter a protecção quase total de Donna. Isso trazia-lhe vantagens. Ninguém poderia brincar com ele. Nesse momento, soube-lhe muitíssimo bem. O ser poderoso.

Isiam viu, espantado, o pequeno grupo a afastar-se e a escolher outra mesa, na outra ponta do refeitório. Tinham-se calado, perante Alois, embora tivessem partido a falar mal dele pelas costas. Nada disso o incomodava.

-Tem... tem cuidado.
Foi a única frase que lhe dirigiu. Voltou a pegar no seu tabuleiro e foi sentar-se perto de Donna.

Ele não queria ser protegido, e pensava que não tinha necessidade disso.
Por um lado, sentia-se confortável, ali sozinho e sem o grupo a mandá-lo embora.
Por outro lado, sentia-se um fraco. Por não se defender sozinho e por ter de ser um loiro exibicionista a fazê-lo.

Uma pequena enfermeira



-Chegou mais uma, George.

O jovem viu a secretária entrar no escritório com um monte de papéis nas mãos. Ela olhou para Jack, que se encontrava sentado num canto do escritório.

-Oh, olá, Jack. O que te traz aqui? -perguntou ela, sorrindo.
George encolheu os ombros enquanto aceitava os papéis da rapariga.
-Veio cá tratar de negócios, Lorraine. Negócios relacionados com a Jewel...
-Jewel Days, exactamente. -interveio Jack, sorrindo.

Era raro Jack vir à cidade tratar desses assuntos, mas era algo necessário. Lorraine sorriu para ele. Jack, com o olhar fixo no corredor, viu uma rapariga que aparentava ter cerca de dezassete anos. Tinha o comprido cabelo castanho preso numa longa trança atrás das costas, pele clara e usava óculos pretos de forma rectangular.

-A idade vai atrasar o processo. Vai fazer dezoito anos para o ano e será meio difícil encontrar vaga para ela. -continuou Lorraine para George, ignorando o facto de a rapariga estar a ouvir tudo do lado de fora.
Jack viu-a suspirar, triste.

-Talvez a aceitem no que abriu há pouco tempo, não? Ela contou-me também que percebe de enfermaria porque o sei pai era médico.

George examinava atentamente os documentos da jovem. A rapariga sentou-se num banco, ficando de frente para a porta e de frente para Jack, que lhe sorriu. Ela retribuiu, corando um pouco.

-Disse-me que queria muito poder ir trabalhar e que não queria ir para um orfanato. Mas cada um tem de enfrentar o seu destino, não é mesmo? -observou Lorraine.

Jack levantou-se e, sob o olhar curioso dos dois adultos, saiu do escritório para se ir sentar no banco ao lado da rapariga. Os seus olhos tristes, de um tom azul esverdeado, observavam Jack atentamente.

-Como é que te chamas? - perguntou ele, delicadamente, e pegando-lhe na mão.
-Waliay. -respondeu timidamente.
-E não queres ir viver para um orfanato, não é?
-Não quero ser tratada como um peso, como alguém sem utilidade. Queria ir trabalhar, para não dar trabalho a ninguém. Não quero ser um problema.

As suas palavras, na sua voz doce, tocaram Jack. Mas mais do que as palavras, era a mistura entre tristeza e esperança no seu olhar. Ela parecia um pouco embaraçada por tê-lo a falar com ela, mas ainda assim mostrou o que sentia.

-Ainda és nova, como sabes, mas penso que posso fazer algo por ti. Queres vir trabalhar como enfermeira para o meu orfanato?


Os olhos de Waliay brilhavam sempre que se lembrava desse dia. E cada vez o imaginava mais bonito. Cada vez com mais um sorriso de Jack. Mais uma palavra bonita do jovem.
Só acordava quando ouvia alguém a chamar por ela. E aí, ajeitava o seu uniforme de enfermeira e ia ajudar quem quer que precisasse de ajuda. Sempre com um sorriso no rosto.

domingo, 1 de abril de 2012

Entendê-lo-ei um dia



Isiam ficara um tanto quanto perturbado com a conversa de Alois. Sentia necessidade de saber mais sobre ele, mas não tinha gostado particularmente da faceta que ele lhe tinha mostrado.
Donna, sentada a seu lado, sentiu a sua inquietação.

-Tens algum problema? -perguntou, na sua voz calma e doce.


Isiam olhou para ela e sorriu, acenando negativamente com a cabeça. Sabia que ela era alguém em quem podia confiar, mas pensou que era ainda cedo para lhe falar do que tinha achado do pessoal do orfanato.

-Sabes que se tiveres algum problema podes vir falar comigo, não sabes? -insistiu, pousando a sua mão na perna dele.
-Eu sei, Donna.

Ele estava agradecido por tamanha hospitalidade da parte dela. Via que ela tentava de tudo para que ele se sentisse em casa, mas ele ainda não se sentia à vontade. Ela olhou-o nos olhos, com ar sério.

-Estás estranho, Isiam. O que aconteceu? Deixa-me adivinhar, encontraste o Alois?

Isiam ficou surpreso. Ela, com a sua conversa e maneira de interagir com ele, parecia conhecê-lo havia algum tempo, apesar de ele apenas ter chegado nesse dia. Ele nem tinha ideia do quão profundamente Donna o conhecia.

-Podes falar-me sobre ele? Ele dá a entender que todos aqui são inferiores... Porquê?

Donna sorriu levemente, contente pela curiosidade do novo amigo.

-A resposta a essa e a outras perguntas chegará mais tarde. Acredito que conseguirás descobri-las sozinho.

sábado, 31 de março de 2012

Mas o que tenho eu de diferente?



A noite estava especialmente calma. Isiam caminhava sem destino pelo orfanato.
Sentado num parapeito de uma das janelas, Alois observava o jardim. Agarrava as pernas com os braços e mexia os pés ao ritmo de uma música que parecia ecoar-lhe na cabeça.
Isiam passou perto dele, esperando que Alois não tentasse meter conversa.

-Ah... Isiam, não é?

Isiam estacou e os seus olhos azuis cruzaram os verdes de Alois. Anuiu.
Alois levantou-se e aproximou a sua cara da de Isiam, sorrindo.

-Vieste quebrar a monotonia da Jewel Days. Isso é bom.

Isiam deu um passo atrás, embaraçado e sem saber o que dizer.

-Tu não és como eles, há algo em ti de diferente. Isso é bom. Para mim também.
-O que queres dizer com isso? -perguntou Isiam, franzindo o sobrolho.

Alois, com o seu olhar malicioso, fitou o jovem acabado de chegar.

-Gosto do diferente. Estou farto do normal.

sábado, 24 de março de 2012

Só e apenas meu


Alois foi o único que não lhe ligou nenhuma, quando chegou ao refeitório acompanhado de Donna.
Todos os outros se aproximaram de Isiam, curiosos. Fazia um bom tempo que não chegava ninguém ao orfanato.

-Dêem as boas-vindas ao Hokushi, pessoas. -anunciou Donna.

Isiam percorreu o grupo de pessoas curiosas à sua frente com o olhar. Abriu um pequeno sorriso. E depois viu-o. Viu o loiro, bastante afastado, que continuava a lanchar, alheio à confusão gerada pelo amontoado de gente à porta do refeitório. Parecia observar tudo de longe, inexpressivo.

"Ignora-me deliberadamente. Porquê?"

Depois de todos fazerem uma ou outra pergunta e de regressarem às suas mesas, Isiam perguntou o nome do rapaz a Donna, em voz baixa, curioso pela falta de interesse.

Mas o rapaz estava enganado. Aquilo não era falta de interesse. Muito antes pelo contrário. Nunca ninguém novo lhe tinha causado tanto interesse.

-Alois. Alois Thive. Esse não convém teres como inimigo, acredita.

Essa foi a única informação que conseguiu sobre ele nesse dia. Por seu lado, Alois tinha conseguido uma ideia. Uma ideia não, um objectivo.

«Serás meu»

sexta-feira, 9 de março de 2012

Mais um



Isiam foi trazido até ao orfanato de táxi. Chovia bastante nessa tarde. A taxista ajudou-o a sair do carro e a levar a sua modesta e quase vazia mala até à entrada do edifício. Este tinha por cima da porta um velho letreiro com o nome «Jewel Days».

-Ficas entregue, miúdo? -perguntou a jovem ao sonolento rapaz. Ele anuiu e entregou-lhe o dinheiro que a assistente social lhe tinha dado.

Debaixo do pequeno telheiro, ficou a ver a taxista voltar ao automóvel e partir novamente para a cidade. Suspirou e ficou uns instantes a observar a porta, antes de tocar à campainha.

Foi recebido por uma menina de cabelos ruivos, olhos verdes e um vestido comprido. Ela sorriu quando o viu e agarrou-lhe na mala, embora fosse mais nova e mais pequena do que o rapaz.

-Isiam, finalmente! -exclamou ela, empolgada.
-Finalmente? Estavam à minha espera? - perguntou ele, confuso.
-Não. Bem, eu estava. Mas deixa lá. Donna, prazer. -disse, estendendo-lhe a mão e sorrindo.

Ela estava. E já devem saber porquê. Também ele era obra de Donna e de Heshian.

Um rapaz poderoso



Ele tinha sido o primeiro. E, por mais que se perguntassem porquê, o porquê dela lhe dar tanta importância, nunca saberiam.
Ele era frio. Ele era amargo. Ele era traiçoeiro. Vingativo. Egoísta. Odiável.

Ela não lhe dava razão. Donna sabia quando algo estava errado, sabia ver quando era o seu primeiro personagem a fazer asneira. Não podia fechar os olhos apenas por ter sido Alois o causador.
Mas dava-lhe poder. Não ralhava com ele por pequenos pormenores. Por pequenos deslizes que a maioria desaprovava. Porque, lá no fundo, gostava de o observar.
Tudo aquilo que tinha escrito estava agora ali, e ela gostava dele. Gostava do rapaz, apesar de, como pessoa, ele não ser tão bom assim.

Ele respeitava-a e isso era, por vezes, o suficiente. Ele ia ganhando, aos poucos, cada vez mais poder e respeito no orfanato.
Todos sabiam que o loiro tinha uma enorme perspicácia. E tinha Donna do seu lado.

E, num orfanato situado algures numa floresta relativamente perto de Londres, um rapazinho, de nome Alois, ia ficando conhecido. Conhecido e poderoso. Graças a Donna.

sábado, 3 de março de 2012

Um nome para o loiro de vestido



Quando a noite chegou, Donna adormeceu com as linhas, o boneco de pano e o caderno abraçados a si. E, quando o momento chegou, levou-os consigo para dentro do espelho.

-Hey, pequena! Como estás? Que trazes aí?
Donna não respondeu, limitando-se a sorrir e a pousar tudo o que trazia nos braços no banco de pedra.
-É aquilo que combinámos?

Os olhos de Heshian pareciam brilhar. Pegou no caderno e folheou-o rapidamente, admirando a quantidade de informação ali escrita. Depois agarrou no boneco costurado e sorriu.

-Preciso de um nome. Um nome, um apelido e uma idade.

A pequena permaneceu em silêncio por instantes.

-Alois Thive, quinze anos.

O loiro de vestido



Donna combinou com Heshian que iria criar. Ela inventava, criava, escrevia e costurava. Ele dava vida. Era o acordo.

Para o seu primeiro experimento, escolheu um rapaz.
Pegou num caderno antigo, abriu-o e começou a escrever.
Escreveu sobre o passado dele, sobre as suas origens, sobre a sua família.
Escreveu sobre o presente. Sobre a sua maneira de ser e de interagir com os outros.
Sobre os seus sonhos e aspirações.

A sua escrita não era a melhor. A pequena não tinha um vocabulário muito complexo e gramática não era com ela. Mas fê-lo com amor, e talvez fosse isso o mais importante.

Depois de ter escrito o mais importante, pegou em materiais de costura que tinha achado em quartos vazios do orfanato e pedido ao Jack.
E começou a trabalhar. Todas as noites, avançava com o projecto.
Costurou um bonito boneco de pano.
Cabelo loiro, feito com linha amarela.
Olhos verdes, botões verdes.
E duas roupas: um conjunto de casaco comprido, calções justos e camisa; e um vestido.
Só mais pela graça.

E depois, esperou que a noite certa viesse. A noite em que ela sentisse que o seu projecto estava pronto para ganhar vida.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ele estará sempre aqui



Era óbvio que aquilo me assustava. Mas eu não dizia nada. Eu só estava a sonhar, a sonhar com um louco qualquer. Quando acordasse estaria tudo bem. Só tinha de ser forte até a noite passar.

Sentia-me perdida, como se estivesse numa floresta, sozinha. Queria sair dali. Mas também queria ouvir o que ele tinha a dizer.

E sim, eu acordei, depois de ele me dizer tudo o que queria. Tive um dia normal, sem loucos a ocuparem-me a mente.
Mas de noite tive o mesmo sonho. Sonhei que entrava pelo espelho num jardim, que formava um labirinto. Encontrei-o na clareira outra vez. Estava lindo, como na noite anterior.

Isto assustou-me. Ele viria realmente todas as noites ter comigo?
Eu não tinha medo dele, tinha medo da situação em si. Ele não parecia querer fazer-me mal. Era tão bonito, delicado. E tinha asas enormes, tal como um anjo. Tirando um ou outro sorriso que pareciam mostrar o seu lado mais insano, era muito querido.
Mas porquê eu?

Uma noite após outra, ele estava lá. Ele cumprimentava-me sempre com um sorriso. Ele queria saber como tinha corrido o dia. E eu contava. Ele... Ele estava sempre lá.
Comecei a habituar-me. Ele começou a contar-me o que os sonhos podem fazer, de bom e de mau. E foi aí que percebi que ele tinha uma ideia em mente.

Eu costurava bonecos. Bonecos e bonecas de pano. E já lhe tinha falado delas. Ele pareceu interessado, na altura não percebi porquê. E, numa noite, sussurrou-me algo como:

E se lhes déssemos... vida?


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Eu explico



"Nós, sonhos, visitamos várias crianças numa só noite. Sim, só crianças. Porque os adultos deixam de sonhar. Eles não sonham, eles só fingem que sonham."

Donna ouvia, interessada.

"Podemos visitar a mesma criança várias vezes por mês ou ano, se tivermos alguma sorte, embora não seja muito provável voltar a encontrá-la. Mas mudamos sempre de forma. Arranjamos sempre maneira de não nos reconhecerem."

Heshian parou de falar por momentos. Agora chegava a melhor parte. Sorriu.

"Mas comigo é diferente. Os meus chefes mandaram-me ficar apenas contigo. Não andarei por aí a visitar várias crianças, Donna. Nem mudarei de forma. Ficarei só contigo para me chatear. Não é fantástico?"

Fantástico. Fantástico. Seria realmente essa a palavra?

Se ficares comigo, prometo ensinar-te montes de coisas



Ela não teve medo.
-Vem comigo, Donna.
Apenas curiosidade.
-Quero mostrar-te uma coisa.

Heshian pegou na pequena mão de Donna e caminhou com ela na direcção oposta à do labirinto.
Ele estava quente, mais quente do que ela. Donna estava a achar toda esta situação bastante estranho, mas nada disse, e não parou de andar.

Ele sorria. Um sorriso bonito, mas um tanto malicioso. Ele não tinha más intenções, mas era hábito seu sorrir maliciosamente. Ele sabia que, se quisesse, podia fazer tudo com ela. Mas Donna era um trabalho permanente. Se lhe fizesse mal agora, ela não voltaria a confiar nele. E não tinha coragem para pedir aos seus superiores para mudar de trabalho.

-Podes explicar-me o que fazes aqui? E que sítio estranho é este?

Heshian olhou para ela e, não dizendo nada, apressou o passo. Chegaram a um pequeno castelo. Ele abriu a porta com a mão livre e entraram. Ricamente decorado, embora com falta de arrumação. As teias de aranha e o pó acumulavam-se nos cantos.

-Desculpa lá o estado disto. Não tenho paciência alguma para arrumar e limpar.
-É, já reparei.

Perto de uma das janelas havia um assento de pedra, ainda um pouco alto. Heshian largou a mão de Donna, pegou-lhe ao colo e sentou-a nesse assento, que não parecia estar tão sujo como o resto da casa, possibilitando-a de olhar para o exterior da casa através da janela.

-Este estranho mundo é o mundo criado pelo teu subconsciente. Estás a sonhar, Donna, embora talvez não te apercebas. E eu? Eu sou um sonho.

Eu sonho, tu sonhas



Toda a gente sonha. Uns mais que outros. Uns mais à noite, outros mais de dia.
Desejos, receios ou apenas cenas disparatadas.
Sonhos maravilhosos, daqueles que nos dão vontade de não acordar. Pesadelos também.
Ela não.
Donna não.
Ela encontrou a realidade dentro do próprio sonho.

A menina doce de cabelos ruivos aprendeu a sonhar de maneira diferente.
Quando, uma noite, sonhou que estava no seu quarto, deitada, e viu que tudo estava no seu lugar, a visão era muito nítida e nada de estranho ali se encontrava, percebeu que tinha entrado numa outra realidade.
E viu o espelho. O espelho parecia gritar o seu nome. Aquele que todas as manhãs a ajudava a arranjar-se. O mesmo de sempre. Mas desta vez parecia ter ganho vida. E chamava, chamava. E ela tocou-lhe. Ainda bem que o fez.

-Donna...
Tudo à sua volta pareceu brilhar. A luz preencheu o seu quarto e passados poucos segundos, já não conseguia ver nada. Apenas branco.
-Donna...
Olhou à sua volta. A luz começava a desaparecer aos poucos e depressa conseguiu ver o que a rodeava. Arbustos. Estava num enorme jardim de rosas. Brancas, vermelhas, cor-de-rosa, amarelas. Os arbustos formavam um labirinto e eram tão altos que a rapariga não conseguia perceber onde estava.
-Onde estou?
-Segue a voz, Donna.
-Como sabes o meu nome?
A voz sussurrante não respondeu. Pareceu sorrir no silêncio.
Donna começou a andar, a procurar uma saída daquele estranho labirinto. Conseguia sentir o perfume fresco das rosas e o penetrante odor a terra. Não parecia estar a sonhar sequer.
-Por aqui, Donna...

A menina seguiu a voz, tentando não se desesperar no meio de tantas folhas verdes e flores. E conseguiu sair de lá. Chegou a uma clareira e lá no meio estava um banco de pedra.
E ele estava lá sentado.
-Estava a ver que não conseguias, pequena.

O jovem estava de costas, de perna traçada e braços apoiados nas costas do banco. Os seus cabelos eram negros como o carvão e reluziam à luz do Sol.
-Quem és tu? -perguntou ela, nervosa.

Ele virou a cara, mostrando os seus hipnotizantes olhos verdes e a sua pele muitíssimo clara. Donna notara agora que das costas dele saíam duas fantásticas asas. Tão maravilhosamente limpas e brancas que ofuscavam os olhos da pequena. Rapaz bonito, aparentava ter perto de vinte anos.

-Heshian, pequena. Mas podes tratar-me por Heshi, se achares melhor.
-Onde estou? E o que fazes aqui? O que é que eu faço aqui?

Ele levantou-se do banco e aproximou-se dela. Tinha um ar tão angelical que, por momentos, Donna não teve medo. Todo o seu corpo e maneira de falar transmitiam segurança. Falsa segurança. Fez-lhe uma rápida festa no sedoso cabelo ruivo e sorriu. E que bonito sorriso o dele!
-Terás tempo para perceber tudo isso, pequena. Vem comigo e eu mostro-te.

Heshian estendeu-lhe a mão. Donna iniciaria naquela altura a melhor aventura da sua vida.

Finge que não sabes de nada e ouve-me



-Ela abandonou-me.
-O quê?

Donna permanecia numa das poltronas da biblioteca a ler quando ouviu a voz de Alois. Até agora, ela era a única do orfanato, além dos trabalhadores, com quem ele havia falado. Uma necessidade de desabafar com alguém preenchia-o. Ela era a pessoa indicada.

-A minha mãe.

Donna fechou o livro e pousou-o em cima da mesa baixa à sua frente. Pôs as pernas em cima da cadeira, enrolando-se e preparando-se para ouvir Alois.

-Queres contar-me?
-Eu... Ela não tinha dinheiro para nos sustentar, o meu pai tinha desaparecido e ela sentia-se muito sozinha e desprotegida, sem ninguém a apoiá-la.

Alois sentou-se numa cadeira à frente de Donna.

-Pelo menos foi o que me contaram. Desde que me conheço por gente que vivo com a minha tia. Ela sempre me deu o melhor que tinha. Esforçava-se para que eu me sentisse bem, para que me adaptasse bem à escola e para que arranjasse amigos. Para que fosse um miúdo normal.

Alois suspirou. Donna olhava-o com compreensão. Conhecia a história do rapaz desde o início até aos dias de hoje. Tal como conhecia a de todos os outros órfãos. Eram-lhe contadas pelo próprio Jack, que pesquisava sobre o passado dos jovens, ou então conhecia-as por ter sido ela mesma a criá-las, numa ou noutra noite. Mas poder ouvir as histórias do próprio órfão era muito melhor.

-Mas amor de tia não é como amor de mãe. Ela era um pouco distante e estava sempre atarefada. Eu sei que ela se preocupava comigo, mas devo dizer que não me ligava muito. Quero dizer, eu via os rapazes com as suas mães e nada do que faziam juntos eu fazia com ela. Desde abraços até passeios no parque, coisas simples que me podia dar. Eu apenas tinha tudo o que o dinheiro podia comprar, e talvez essa fosse uma maneira de ela demonstrar o seu amor. Mas eu sentia-me um pouco sozinho, apesar de gostar muito dela.

Donna conhecia a história. Donna sabia. Fora ela a autora, embora ele não desconfiasse de nada.

Muito mimo, muito capricho e pouco tempo para amar. A rosa tornara-se fria e caprichosa, e essa linda rosa fora parar a um orfanato, após a sua tia adoecer.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Que alguém o apanhe... e o abrace



-Hey, miúdo novo! Não queres sentar-te connosco?
-Eu sei que não querem a minha companhia, escusam de fingir.
Donna suspirou, ao ver o rapaz loiro pousar o tabuleiro com o almoço a umas mesas de distância e a comer sozinho, depois de ter respondido aos habitantes habituais do orfanato com desprezo.

~

-Gente inferior... -murmurava Alois.
-O que disseste?
Alois pegou nos livros e virou-se para a origem da voz. Vinha de um rapaz alto que já estava no orfanato desde a sua criação, ou quase. Pousava as mãos na mesa de forma intimidadora.
-Gente inferior.
-Porquê? Julgas-te melhor?
-Não, nem por isso. Mas se ajudo alguém, é porque realmen...
-Ora aí está, nunca te vi a ajudar ninguém desde que chegaste. E como sabes mais, podias ajudar quem não está a perceber a fazer exercícios, ou algo assim.
Os tons de voz começavam a elevar-se.
-Como dizia, se ajudo alguém, é porque realmente quero que a pessoa fique melhor, seja naquilo que for. Consigo ver a hipocrisia nas vossas caras e os vossos olhares de tédio quando o fazem. Só não percebo porquê. -gritava Alois para o agora irritado rapaz à sua frente.
-O quê?!
-Basta!
Donna pegara no livro e batera com ele na mesa com toda a sua força, calando os dois jovens que discutiam. Eles olharam perplexos para a rapariga.
-Alois, sobe. E tu, continua o que estavas a fazer.
Obedeceram, um tanto chateados. Alois subiu para o seu quarto em silêncio, deixando a biblioteca com um ambiente pesado.

~

Uma rosa vivia numa redoma. A redoma foi-lhe retirada, mas a rosa ainda não estava pronta para viver no mundo exterior. Era demasiado frágil e delicada. E encontrou na arrogância uma forma de se esconder de tudo e todos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Talvez... talvez seja melhor só violino mesmo



Nunca lhe tinham dito que tocar piano não é fácil. Quando o velho piano chegou ao orfanato, Donna estava radiante. E, encantada pela música que tinha ouvido tocar quando era pequena, quis tentar. Jack deu-lhe permissão.
Donna prendeu o seu cabelo ruivo num rabo-de-cavalo e sorriu, pronta para experimentar.

Alois aguardava os resultados espreitando pela porta, em silêncio.
Pousou o seu delicado dedo numa tecla. Depois noutra. O som das notas quebrava o silêncio.
A timidez ia desaparecendo à medida que dedilhava o piano.
Parecia estar a adorar estar a fazer aquilo. Fingia estar a tocar a mais bela melodia de sempre. Sorria, ao ouvir as não-tão-belas notas.
Alois riu-se baixinho. Em tal momento, era-lhe impossível ser frio ou amargo. Donna parecia estar a adorar estar ali, embora não soubesse bem o que estava a fazer.

Donna parou, ao ouvi-lo rir-se. Voltou-se para trás para ver quem a estava a observar. A chuva batia com força nas enormes janelas do salão.
-Podes continuar. Estava a gostar.
-Tu, a gostar? Sei que não sei tocar, Alois, podes ir-te emb...
-Calma, não faço mal. Estava falar a sério, estava a gostar.

Ele aproximou-se dela e pousou as suas mãos nos ombros dela, baixando depois a cara para perto da dela e sussurrando-lhe ao ouvido:
-Estavas tão concentrada. Não tocas bem, mas estava a gostar de te ver. Era interessante se alguém te pudesse ensinar. Darias uma excelente aprendiz.
Donna baixou a cabeça para o piano e corou levemente.
-Eu gostava, mas acho que ninguém de cá sabe tocar.

Alois sentou-se num banco perto do piano, e fixou-a com um olhar triste. A chuva continuava a cair. O Inverno estava bastante rigoroso.

-Tu... sabes?
-Não.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Jewel Days - A chegada



-Vai chegar mais um, Donna. E quero que lhe dês ainda mais atenção do que aos que têm vindo.
-Sim, Jack.

"Mas porquê?"
"Porque ele teve um passado difícil. Porque ele não fará fácil a vida de ninguém. E principalmente porque precisa muito de nós."

O seu nome era Alois Thive e, tal como Jack dissera, não era propriamente simpático.

-Sê bem-vindo, Alois.
-Onde é o meu quarto?