-Ela abandonou-me.
-O quê?
Donna permanecia numa das poltronas da biblioteca a ler quando ouviu a voz de Alois. Até agora, ela era a única do orfanato, além dos trabalhadores, com quem ele havia falado. Uma necessidade de desabafar com alguém preenchia-o. Ela era a pessoa indicada.
-A minha mãe.
Donna fechou o livro e pousou-o em cima da mesa baixa à sua frente. Pôs as pernas em cima da cadeira, enrolando-se e preparando-se para ouvir Alois.
-Queres contar-me?
-Eu... Ela não tinha dinheiro para nos sustentar, o meu pai tinha desaparecido e ela sentia-se muito sozinha e desprotegida, sem ninguém a apoiá-la.
Alois sentou-se numa cadeira à frente de Donna.
-Pelo menos foi o que me contaram. Desde que me conheço por gente que vivo com a minha tia. Ela sempre me deu o melhor que tinha. Esforçava-se para que eu me sentisse bem, para que me adaptasse bem à escola e para que arranjasse amigos. Para que fosse um miúdo normal.
Alois suspirou. Donna olhava-o com compreensão. Conhecia a história do rapaz desde o início até aos dias de hoje. Tal como conhecia a de todos os outros órfãos. Eram-lhe contadas pelo próprio Jack, que pesquisava sobre o passado dos jovens, ou então conhecia-as por ter sido ela mesma a criá-las, numa ou noutra noite. Mas poder ouvir as histórias do próprio órfão era muito melhor.
-Mas amor de tia não é como amor de mãe. Ela era um pouco distante e estava sempre atarefada. Eu sei que ela se preocupava comigo, mas devo dizer que não me ligava muito. Quero dizer, eu via os rapazes com as suas mães e nada do que faziam juntos eu fazia com ela. Desde abraços até passeios no parque, coisas simples que me podia dar. Eu apenas tinha tudo o que o dinheiro podia comprar, e talvez essa fosse uma maneira de ela demonstrar o seu amor. Mas eu sentia-me um pouco sozinho, apesar de gostar muito dela.
Donna conhecia a história. Donna sabia. Fora ela a autora, embora ele não desconfiasse de nada.
Muito mimo, muito capricho e pouco tempo para amar. A rosa tornara-se fria e caprichosa, e essa linda rosa fora parar a um orfanato, após a sua tia adoecer.
Sem comentários:
Enviar um comentário