segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Eu sonho, tu sonhas



Toda a gente sonha. Uns mais que outros. Uns mais à noite, outros mais de dia.
Desejos, receios ou apenas cenas disparatadas.
Sonhos maravilhosos, daqueles que nos dão vontade de não acordar. Pesadelos também.
Ela não.
Donna não.
Ela encontrou a realidade dentro do próprio sonho.

A menina doce de cabelos ruivos aprendeu a sonhar de maneira diferente.
Quando, uma noite, sonhou que estava no seu quarto, deitada, e viu que tudo estava no seu lugar, a visão era muito nítida e nada de estranho ali se encontrava, percebeu que tinha entrado numa outra realidade.
E viu o espelho. O espelho parecia gritar o seu nome. Aquele que todas as manhãs a ajudava a arranjar-se. O mesmo de sempre. Mas desta vez parecia ter ganho vida. E chamava, chamava. E ela tocou-lhe. Ainda bem que o fez.

-Donna...
Tudo à sua volta pareceu brilhar. A luz preencheu o seu quarto e passados poucos segundos, já não conseguia ver nada. Apenas branco.
-Donna...
Olhou à sua volta. A luz começava a desaparecer aos poucos e depressa conseguiu ver o que a rodeava. Arbustos. Estava num enorme jardim de rosas. Brancas, vermelhas, cor-de-rosa, amarelas. Os arbustos formavam um labirinto e eram tão altos que a rapariga não conseguia perceber onde estava.
-Onde estou?
-Segue a voz, Donna.
-Como sabes o meu nome?
A voz sussurrante não respondeu. Pareceu sorrir no silêncio.
Donna começou a andar, a procurar uma saída daquele estranho labirinto. Conseguia sentir o perfume fresco das rosas e o penetrante odor a terra. Não parecia estar a sonhar sequer.
-Por aqui, Donna...

A menina seguiu a voz, tentando não se desesperar no meio de tantas folhas verdes e flores. E conseguiu sair de lá. Chegou a uma clareira e lá no meio estava um banco de pedra.
E ele estava lá sentado.
-Estava a ver que não conseguias, pequena.

O jovem estava de costas, de perna traçada e braços apoiados nas costas do banco. Os seus cabelos eram negros como o carvão e reluziam à luz do Sol.
-Quem és tu? -perguntou ela, nervosa.

Ele virou a cara, mostrando os seus hipnotizantes olhos verdes e a sua pele muitíssimo clara. Donna notara agora que das costas dele saíam duas fantásticas asas. Tão maravilhosamente limpas e brancas que ofuscavam os olhos da pequena. Rapaz bonito, aparentava ter perto de vinte anos.

-Heshian, pequena. Mas podes tratar-me por Heshi, se achares melhor.
-Onde estou? E o que fazes aqui? O que é que eu faço aqui?

Ele levantou-se do banco e aproximou-se dela. Tinha um ar tão angelical que, por momentos, Donna não teve medo. Todo o seu corpo e maneira de falar transmitiam segurança. Falsa segurança. Fez-lhe uma rápida festa no sedoso cabelo ruivo e sorriu. E que bonito sorriso o dele!
-Terás tempo para perceber tudo isso, pequena. Vem comigo e eu mostro-te.

Heshian estendeu-lhe a mão. Donna iniciaria naquela altura a melhor aventura da sua vida.

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